O DRAMA DO PETRÓLEO circa 1935
Quarta-feira, 27 Setembro 2006 (14:51)

O jornal republicano A Voz da Justiça começou a ser publicado em 1902, com uma mãozinha maçónica de Bernardino Machado [aka Littré na Loja Fernandes Tomás lá para as bandas da Figueira], e durou até 1938, ano em que o Estado Novo determinou o encerramento das instalações da Tipografia Popular, proprietária do jornal e situada no mesmo edifício onde estava instalado o Templo da Loja Fernandes Tomás.
Na verdade, o último número do jornal foi publicado a 10 de Julho de 1937, seis dias após a tentativa de assassinato (à bomba!) de Salazar pelos “anarco-sindicalistas”. Já desde 1935 que se vinham preparando leis que proibissem qualquer cidadão português, sob penas graves, de fazer parte de associações secretas, fossem quais fossem os seus fins e organização, obrigando todo o funcionário público e todo o estudante com 16 anos ou mais a uma declaração de não-pertença e compromisso de jamais pertencer [cf. Rosas, Dicionário do Estado Novo]. A Maçonaria era uma das principais visadas por tais leis.
Segundo a brochura (€1 ali no Bairro Alto) de António Lopes, A Maçonaria na Figueira da Foz entre o final do século XIX e os anos trinta do século XX [Lisboa: Museu Maçónico Português, 2006], a Loja Fernandes Tomás controlava a edição do jornal, «nele fazendo eco das suas posições a favor do Registo Civil Obrigatório, da Lei do Divórcio ou da Lei de Separação do estado das Igrejas». Entre os muitos intelectuais e democratas que colaboraram no jornal, encontramos os nomes de Aquilino Ribeiro, Abel Salazar ou João de Barros.
A Voz da Justiça tinha uma periodicidade bi-semanal (quartas e sábados) e um formato próximo do do Expresso antes da passagem a berliner há poucas semanas. Foi quase sempre uma folha única (4 páginas) eclética, que tanto publicava anúncios de venda de alfaias agrícolas e relatos de todos os acontecimentos desportivos dos concelhos vizinhos (tiro, remo, football), como folhetins literários, recensões a obras de Raul Brandão ou textos de conferências científicas e literárias de Henrique de Vilhena. A um cantinho era frequente encontrar-se, edição após edição, o nome de pessoas (assinantes, curiosos, outros) que haviam visitado as instalações do jornal.
Na primeira página da edição de 21 de Dezambro de 1935, A Voz da Justiça publicou uma espécie de digest de alcance mundial relativo às disputas entre nações pelo domínio das reservas de petróleo conhecidas, já então o mais importante e cobiçado recurso energético do planeta. Sob o título «O Drama do Petróleo», permite analogias demasiado intrigantes com a actual situação no Médio Oriente (e não só), mais de 70 anos depois.
Reproduz-se abaixo o artigo completo, com sublinhados e links nossos.

O DRAMA DO PETRÓLEO
[jornal A Voz da Justiça, Figueira da Foz, 21 de Dezembro de 1935]
A luta para o predomínio dos jazigos petrolíferos nos nossos dias é qualquer coisa de épico e ao mesmo tempo angustioso.
Em 1935 o petróleo é o sangue do mundo. Lá para o ano 2000 é possível que todos os poços se tenham esgotado. O facto não terá então importância, porque a ciência permite desde já encontrar sucedâneos para tudo. Mas de momento, quem possuir mais petróleo e sobretudo quasi todo o petróleo dominará o mundo. Senão vejamos: nos países pobres e não electrificados, como sucede em quasi toda a Ásia, é a iluminação; nos países ricos são os aviões, os automóveis, os camiões, os motores de explosão e a óleos pesados e até a lubrificação das máquinas a vapor. Isto em tempo de paz. Em tempo de guerra são mais os tanks e todas as unidades motorizadas.
Um país privado de petróleo dum momento para o outro ficava pior do que no tempo dos carros de bois, porque os bois e as muares não se criam do pé para a mão.
Isto explica também porque a sanção do petróleo só muito dificilmente será aplicada à Itália.
O petróleo existe sob a crosta terrestre em bolsas ou toalhas, mais ou menos extensas, que outrora se formaram em certas regiões e em certas épocas geológicas pela acção de gases, sobre depósitos carboníferos. Estes gases, em que o hidrogénio representava o principal, actuavam em circunstâncias especiais de pressão e temperatura hoje inexistentes.
No princípio do século passado, o petróleo não servia para nada quando o pai do actual «Rei do Petróleo», Rockefeller, se lembrou de o vender para o tratamento de certas doenças. Não se pode dizer que esta ideia não fosse luminosa, porque menos de meio século depois formava-se a primeira grande companhia americana hoje universalmente conhecida sob o nome de Standard Oil. Ao actual Rockefeller se deve a invenção magistral dos pipe-lines, longas tubagens que, dos poços e através de quilómetros, conduzem o petróleo bruto aos portos de embarque. Actualmente a Standard Oil possui 15.000 quilómetros e tem o seu activo repartido por 13 filiais. O poder desta companhia alia-se ao do Governo americano, donde resulta por vezes, no choque de interesses mundiais, um iminente perigo de guerra. Mas nem sempre assim sucede e a morte misteriosa do Presidente Harding parece indicar que nem sempre os Governos podem contrariar os desejos dos petroleiros.
Enquanto a Standard se ia desenvolvendo na América de Leste, a companhia inglesa Shell Transport concluía um acordo com a companhia holandesa Royal Dutch e formavam o segundo grande grupo mundial. A Royal Dutch Shell é dirigida por um homem da envergadura de John Rockefeller, Henry Deterding, que soube assenhorear-se pouco a pouco dos mais importantes jazigos de petróleo existentes no mundo e por tal forma que, se a Standard Oil produz hoje a maior quantidade, as maiores reservas estão de posse da Royal Dutch.
Um terceiro grande grupo é formado pela Anglo-Persian Oil [futura BP], onde o Governo inglês possui grandes capitais.
O maior porto exportador do mundo é Nova Iorque. Filadélfia possui as mais importantes refinações.
O México tornou.-se o segundo país exportador e a guerra civil permanente neste país não atesta senão a luta entre a Standard e a Royal Dutch para a posse dos poços mais ricos. Neste país existem três grandes companhias: a Mexican Petroleum, a Standard Oil e a Mexican Eagle, filial de Deterding.
A rica República da Venezuela, paraíso dos forçados evadidos da Guiana, é chefiada vitaliciamente pelo ditador Gomez, cuja morte os jornais agora noticiaram. Pois este Gomez era um homem de Deterding. Venezuela é petróleo e só petróleo. A Guatemala e Sandino são um capítulo sangrento da Standard Oil.
A guerra do Chaco entre a Bolívia e o Paraguai é a continuação da luta do petróleo mais ao sul.
O assassinato do cônsul americano em Teheran, capital da Pérsia, há anos ocorrido, é uma fase da luta.
O desaparecimento de Rudolfo Diesel de bordo do vapor que o conduzia de Ostende a Dover deve ser imputado à mesma causa.
A Inglaterra não desiste de impedir que a América seja mais poderosa. Os navios movidos ontem a hulha são-no hoje a mazut. A posse recente do Iraque é a continuação da luta que parece, pelas reservas, favorecer o Império Britânico.
O terceiro mercado é o caucasiano, hoje inteiramente nas mãos do Governo soviético. Bakon é o principal centro, Batoum o principal porto.
Em matéria de intrigas secretas, os russos não têm ficado atrás dos outros grupos. A eles e ao seu agente Frank Hennings parece dever-se o célebre incêndio do poço romeno Moreni, que durou dois anos.
O mercado romeno, dos Cárpatos da Transilvânia, é o mais importante da Europa.
Na Ásia a Pérsia é o principal produtor. Os seus jazigos são dos mais ricos. Nas Índias Neerlandesas, Java, Sumatra, Madoura, Timor e Bornéu são os principais núcleos da Royal Dutch, que possui em Batávia e Surabaia grandes refinações.
Mas os mais formidáveis julga-se que são os ora descobertos na Mesopotâmia e conhecidos pelo nome de Iraque. A sua importância parece tão grande que a Inglaterra viu-se forçada a deslocar a sua posição do Mediterrâneo, fazendo de Haifa a sua principal base.
A síntese do petróleo é assunto averiguado. O processo do alemão Bergins permite hoje à I. G. Farbenindustrie fabricar doses enormes para as quais as poderosas companhias petrolíferas, desejosas de assegurar o futuro, concorreram com vastos capitais.