erva de vénus

Terça-feira, 31 Outubro 2006 (16:29)

erva

Revelação Parte XXXVVLLLIII

Terça-feira, 31 Outubro 2006 (13:32)

Tanto os post’s remanescentes como as prédicas “construtivistas” de António Rebelo (há que assumir os nomes, como diz o Miguel Sousa Tavares, senão qualquer cobardolas pode ser como eu e dardejar vilipêndios a torto e a direito por detrás do seu nick seráfico) tiveram o condão de me fazer ver que está altura de trocar os teoremas e equações de filósofo de vão de escada por actos que revelem substância (no passado, os saudosos combatentes anarquistas chamavam-lhe “acção directa”). Ai, os fascizóides capitalistas têm a mania que são senhores do meu destino? Então, esperem um bocadinho que já vão ver. Vou, agora mesmo, retirar todo o dinheiro do banco, e dos bolsos das calças (da última vez que passei revista nas camisas a quantia já devia dar para pagar umas férias num hotel de cinco estrelas), e passar à clandestinidade para me juntar aos meus irmãos (não, não é o Miguel Melo nem afins) de luta. Eles vão ver quem é que manda nisto.

(Fecho a porta de casa e Toc, Toc, Toc, Toc, Toc, por favor, imaginar os sons dos meus ténis Gola de Gibraltar a sapatear as escadas. De seguida, sento-me ao volante do meu classe económica, um pouco acima dos 15 mil euros, e Vrummm rumo a Algés)

Caixa Geral de Depósitos com o Nenuco. Encho o peito e disparo na direcção do pobre escravo que atrás do balcão rema naquela galé putrefacta ao ritmo das chicotadas do pala preta do gerente. Nesta barcaça de corsários ranhosos, eles já vão ver quem é o Johny Depp português!
– Bom dia, como está?
– Bom dia, Sr Luís (voz grossa e olhar incisivo). Olhe, eu quero levantar…
– Ainda bem que aparece. Tenho óptimas notícias.
– Depois, depois, meu caro. Eu trouxe a minha caderneta e quero fazer um…
– Espere, não resisto em dizer-lhe. A sua esposa fez uma aplicação com os seus certificados de aforro e triplicou o valor da sua conta.
– Sim, mas olhe…O quê? Pode repetir.
– É verdade. Três vezes mais. Que belo investimento. Mas diga lá o que o traz por cá?
– Hã?…He..Pois, será que me podia actualizar a caderneta ? É que tenho andado um pouco descuidado com as contas e aquela caixa multibanco ali não funciona…Pronto, se não for muito incómodo, claro…

Blogger Convidado #1(x2): El Mariachi

Terça-feira, 31 Outubro 2006 (11:05)

O camarada El Mariachi Diaz, vulgarmente epitetado “o Banhadas”, foi doucement instado a inaugurar por cá nova rubrica, para a qual contribuiu com duas peças honestas de inegável riqueza para futuros debates. Antes da leitura das ditas, porém, devem estar alerta as mentes mais sensíveis para o teor conjunto de ambas, pois há terror e humor transpirando coragem suficiente para desarmar muitos dos seus habituais críticos: o autor desnuda-se perante o leitor ao oferecer-lhe um insight precioso (quase invisível) para a profundidade bivalve de uma mente dividida entre a calmaria da cidade e o bulício das serras, levando-nos de caminho a questionar certas noções intrínsecas de Cultura, os segmentos que lhe impômos… e as memórias que se vão perdendo e deixam todo um país mais pobre. 

Sigam as prosas.

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A raia e não a raia ou a Raia 

Era baixinho, um pouco curvado, o que deixa sempre adivinhar alguma humildade (só na minha cabeça, bem sei). A pronúncia, essa, de Portalegre e sem lugar para dúvidas. Não tão carregada como a calipolense (libata, segundo os redondenses), sem os assobios beirões (disparados a partir de muitas outras mesas, entre graçolas regionalistas), e apenas geograficamente próxima do mui curioso açoriano que se fala em Niza ou Póvoa e Meadas. 

A conversa teria seguido a vereda habitual «de como Espanha está economicamente melhor que Portugal, esses sacanas», houvera ela não sido encetada por um homem da raia. Nestes casos, nada como ter um gravador no telemóvel. Editei. 

«Tinha eu seis anos e o meu avô, como sempre fazia, recolheu uns quantos espanhóis, acho que eram doze, dessa vez, fugidos da Guerra Civil, vinham buscar sabão, café, pão. Escondia-os, dava-lhes de comer e beber, tantas vezes que eles já sabiam onde era “a do Castro”. A Guarda Fiscal desconfiava. E rondava. Mas lá vinha um vizinho e dava o alarme, sentava-se ele à farta mesa e os espanhóis passavam para o anexo. Um dia ninguém avisou. A Guarda entregou-os, na fronteira, às autoridades “galegas”. Não deram nem mais um passo. Foi logo ali. Eu vi. Caíram em fila indiana! A partir daí, o meu avô pôde recolher quem bem desejou, a Guarda nunca mais entregou ninguém, só tinha de haver um copo também para eles, caso passassem “à do Castro”. Uns anos depois, começámos nós a sentir o Salazar na pele. Tínhamos senhas para trocar por pão, azeite, carne magra. Eles o dinheiro. Quando chegávamos à padaria, já não havia nada nas prateleiras. Levavam tudo. Começou o contrabando. Éramos nós que passávamos para o outro lado, para ver se arranjávamos algum. Mas morreu muita gente. Eles atiravam sobre tudo o que sequer desconfiavam que fosse português!» 

Esses sacanas!

fronteira

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Fazer-me Soar

[uma crónica do Doc] 

Agora que Dom Nenuco, Conde de Belford Roxo, já vez o favor de contar a todos os presentes (sim, a ti também), venho por este meio, e de forma alguma tentando justificar-me, relatar o que sucedeu no dia 27 de Outubro de 2006, por volta das 22h17m, na repartição Eventos Culturais da Caixa Geral de Depósitos, ao Campo Pequeno. 

Grand Chartreuse, perto de Grenoble, é o principal mosteiro da Ordem dos Cartuxos e um dos mais ascéticos do mundo. O principal objectivo dos frades que aceitam a regra é a contemplação.

Penso que terá sido esse o objectivo de Philip Gröning neste Into the Great Silence. São três horas (164 minutos) ao longo das quais o próprio espectador aceita contemplar quem faz da contemplação a sua forma de vida. Não é fácil! Não há: 

1) música (à excepção das Nocturnas), 

2) luz que não a natural (e não é, já de si, muita), 

3) diálogos, entrevistas, voz off, enfim! 

Há, isso sim, uma câmara (ou o homem por trás desta) com um rigor estático desarmante. Um irrepreensível álbum de fotografia em imagens que se movem só quando o fazem os seus intervenientes. Oram. Oram muito. O público observa como se ora em silêncio. Um noviço do Mali é iniciado. Pobreza. Muita. Talheres de madeira, hábitos remendados, o “alfaiate” é também o “agricultor”, o “barbeiro” e aquele que leva pela mão o Irmão invisual. Este último agradece a Deus por lhe ter sido concedida tamanha bênção, obrigando-o assim a “ver” muitas outras coisas. Espera impávido a morte que chega a passos largos, porque «Deus só vê o bem, e é isso que terá em consideração quando chegar junto dele». O rapport entre as cenas é dado por passagens como 

Então o Senhor passou por ali e mandou um vento muito forte, que rachou os morros e partiu as rochas em pedaços. Mas o Senhor não estava no vento. Quando o vento parou de soprar, veio um terremoto; porém o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo uma voz calma e doce. 

Transforma-se a paisagem ao longo de quatro estações, não a vida no convento, ora reconfortante o silêncio no seu interior contra o uivo do próprio Inverno que fustiga, furioso, estas altitudes, ora o casamento perfeito entre a passarada primaveril que lá fora apela a uma voltinha de trenó antes do degelo completo. À imagem da diversão de tão imaculados religiosos, há uma ou outra gargalhada incontida na audiência. Não minha. Eu acordo com o meu próprio ressonar, mesmo a tempo de reparar que a imagem está a meia-tela, o projector desceu, portanto. Alguém grita: «Sobe isso» sem deixar de levar com um colérico: «CALEM-SE, MERDA». 

«Deus castiga», alguém responde. 

C’est amusante, la haute culture à la Portugaise!

onomedacoisa