«dead tree publishing»

Segunda-feira, 9 Outubro 2006 (11:29)

vdj-livros.JPG

Olho à minha volta, olha à volta da sala onde trabalho com mais três pessoas, e desato a enumerar. Além de nós, no campo visual abarcado a partir da cadeira onde estou sentado, consigo ver: mais de mil livros, de todos os tamanhos e formatos, alguns com cem anos de vida; umas quatro dezenas de dossiês de arquivo (cheios de arquivo); várias resmas de papel usado e por usar. Vejo também: pilhas de jornais, muitos blocos, alguns post-its, maços de envelopes, pastas, embrulhos e invólucros, cartazes, recortes, centenas de revistas e umas oito caixas de cartão. Além de todo este papel e derivados, há nesta sala soalho em tacos, portas e respectivas ombreiras, e armários, tudo isto em madeira (e derivados). Por fim, alguns lápis, lenços de papel, caixas de fósforos e embalagens de chá. Contas por alto (sem qualquer ciência), devem estar connosco umas três toneladas de papel, mais uma e meia de madeira. Quantas gerações de árvores abatidas me acompanham aqui, diariamente, em “espírito”?

Pela janela vê-se um enorme jardim e árvores com fartura, que o vento agita ora com vagar.   

[fiquei assim um bocado para o parado após ler um texto sobre o futuro do livro, no short term memory loss – música, teatro, debate, literatura, cidade, rádio, tudo servido de forma directa e imprevisível, com um toque “caseiro” e alguns murros no estômago]

Adenda tónica: O Nuno Seabra Lopes, da Extratexto, com muito saber de experiência feito, conseguiu em poucas frases varrer a nuvem negra que pairava sobre esta praia. Nos seguintes termos:

«Olá João,

Apesar de tudo o texto não é original nem assim tão convincente. Não é que as novas tecnologias e as novas formas de publicação não alterem profundamente os métodos de produção e o próprio produto, claro que sim. O que ele se esquece é que em economia só uma coisa gere tudo: dinheiro.

[os livros em papel] Não vão acabar porque nunca as pessoas irão querer perder dinheiro e o dinheiro só se junta para fazer mais dinheiro.

As tecnologias nas TIC não são disruptivas, são evolutivas, quanto mais tecnologia houver mais as editoras vão passar a desenvolver novos produtos e novos métodos para ganhar cada vez mais dinheiro. Daqui a 10 anos pode ser que o livro físico passe a ser uma minoria de uns 10% do total, mas:

1.º isso será porque os restantes produtos aumentam 500% e não por o livro diminuir;

2.º serão os editores os primeiros a consolidar as fontes (copyrights, armazenagem e gestão da informação, etc.) para poderem utilizá-las de diferentes formas e ganharem ainda mais dinheiro com as novas tecnologias.

Se determinado autor não rende com um livro físico, faz-se o livro físico, partes de livros, pré e pós-publicações em diferentes formatos, formato digital, adaptação para todos os géneros, e quiçá, pega-se naquilo tudo e faz-se um livro igual com nomes diferentes.

As pessoas que acham que as empresas vão morrer por causa disso estão bem enganadas… só morrem as empresas que já deviam ter morrido, pois não acompanham as evoluções.

Alguns dizem que até é de propósito que se está a criar esta nova tecnologia, pois o embaratecimento da tecnologia de edição actual leva a que haja muita “gente nova” a entrar no negócio, e se as tecnologias forem caras esses concorrentes ficam de fora.»

Pois é.

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9 Respostas to “«dead tree publishing»”

  1. Por favor, Sr. Palmeira, ajude-me…

    O STML é um dos sites que foi BANIDO do servidor da Empala, SA!!!

  2. palmeira said

    Sr. Basmati, não faço mesmo ideia como poderei ajudá-lo… Diga-me o senhor. Já agora, por acaso imagina por que razão esse site terá sido banido?

  3. Basta figurar o termo “download” ou “sex” na página principal. O que tem piada tendo em conta que o Jacquie Chan tinha a Gina ou a Tânia, não posso precisar.

    Enfim, sofreu uma long term memory loss!

  4. nenuco said

    Devo dizer que tenho muitas dúvidas quanto à sobrevivência do livro em papel. Apesar de partilhar a visão clássica, de gostar de mexer e “saborear” os livros, considero, quase, uma inevitabilidade a passagem no futuro ao digital, quando a sociedade estiver totalmente informatizada e a inteligência artificial – ou o mais próximo disso que existir – for tão natural como a TV nos dias de hoje. E não penso que isso venha ocorrer em tempos assim tão distantes.

  5. Agora a sério. Acho que o Seabra Lopes consegue explicar como é que a Oficina sobrevive economicamente daquelas coisas realmente más que tem (é que nem sofríveis são) e volta e meia dá-nos uma estalada de mão cheia.
    Tenho até uma vaga esperança que o trecho “minoria de uns 10% do total” possa vir a fazer do homem um piqueno Nostradamus. É que o livro banalizou-se de tal forma que é quase preciso ir a um alfarrabista para sentir “aquele” prazer ao folheá-los!
    E penso eu que esteja aqui a comentar o poste do senhor que o faz como se tivesse medo de os rasgar ou algo pior!

  6. palmeira said

    Basmati,
    já li o teu comentário 16 vezes em 3 minutos e, sinceramente, continuo sem perceber o que é que queres dizer: consegues pôr isso tudo de uma forma menos elíptico-críptica?

  7. 1º ideia – A Oficina do Livro tem coisas muito más e coisas muito boas! Vive das más, que vendem, orgulhando-se das boas, mesmo muito boas.
    2ª ideia – O livro deixou de ter aquele carácter de há (poucos) anos atrás. Publica-se tudo e isso faz com que se tenha tornado algo descartável. Vir um dia a representar apenas 10% do mercado editorial seria positivo, dessa perspectiva, pelo menos.
    3ª ideia – Tu mexes nos livros com modos de arqueólogo!
    4ª ideia – Se eu voltar a encontrar na tua mão um exemplar do Boris Vian ou do William Burroughs logo te dou o elíptico-críptico!

  8. palmeira said

    AHAHAHAHAHA HAHA HA
    Obrigado :)

    Juro que não tinha percebido! Ou melhor, não tinha a certeza de ter percebido “as ambiguidades” do teu kommentar.

    Basicamente, concordo contigo.

    1.ª ideia – Quase todas as editoras são “obrigadas” a fazer isso, tirando talvez a Gulbenkian e outras cuja sobrevivência não depende da venda dos livros que publicam. Uma editora que pretenda sobreviver, e não possua um administrador filantropo, tem que jogar num periclitante equilíbrio entre as edições comerciais e as edições de prestígio. O caso da Oficina será mais gritante devido às suas campanhas de marketing mais aguerridas – e a ter no catálogo a Margarida RP, a Catarina Furtado e a Laurinda Alves; mas também estão lá a Sarah Adamopoulos, o Luiz Pacheco e o Diego Armando Maradona! Portanto, concordo contigo, eles têm edições mesmo muito boas, esta foi a última que vi: http://www.oficinadolivro.pt/site/bookdetails.aspx?bookID=303

    2.ª ideia – Era diferente. Mas seria mesmo assim tão diferente? Já viste bem a quantidade de livros que os alfarrabistas nunca irão conseguir vender nem nunca ninguém mais quererá ler? Nem é preciso ir mais longe do que a primeira sala da Barateira.
    Sempre foram descartáveis. Quanto mais para trás andarmos, mais descartáveis são (falando das edições “de rua”, para “o povo”, mais baratas, não das encadernações de mosteiros e bibliotecas aristocráticas). Livros que tiveram edições de milhares e dos quais hoje só restam algumas cópias.
    O “há alguns anos atrás” pode também confundir-se com uma certa altura do séc. XX português em que era proibido editar certos livros – que até sabemos que eram bem bons ou bem melhores que muitos que por aí andavam. E tu e eu preferimos sem dúvida que se possa editar tudo (o lixo e o nicho) do que haver pessoas a quem não reconhecemos autoridade a seleccionarem o que se há de editar ou não. Quanto aos 10% que o NSL falava, não creio que isso siginificasse uma redução do número de edições e livros editados mas sim um crescimento exponencial de todos os outros produtos que não o livro em papel.
    O livro tornou-se um produto “banal” e “descartável” precisamente porque as tecnologias o permitem, e ainda bem. É como o «burn the bra»… A liberdade traz excessos, mas a coisa depois vai estabilizando.
    Penso por isso que este excesso de produção editorial terá necessariamente que ter um retrocesso, até pelo risco de um dia já não termos sombras de árvores para nos sentarmos a ler…

    3.ª e 4ª ideias – voltar às duas primeiras linhas deste kommentar.

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