uma anedota de 1847

Quarta-feira, 25 Outubro 2006 (16:53)

1847

Caro Nenuco,

De modo a bem surfar a onda “positivista” que, inadvertidamente, qual Lua careca, atraíste a esta casa, e em resposta aos teus apelos de que procurasse mais fundo a cura para a depressão tal como era prescrita no século XIX, abro-te aqui uma janela no tempo para uma anedota (?) publicada pelo Semanário Eborense, espécie de almanaque generalista [ou «periódico recreativo», no dizer dos seus autores] cunhado em Lisboa com óbvio pendor alentejanista.

Este Semanário continha historietas, poemetos, quadrinhas, teatrinhos, «máximas moraes» [se pedires muito arranjo-te uma], e outras eborices do género acabadas em -etas, -inhos e -aes. Receitas, népias, o que é uma pena: teriam concerteza contribuído para a longevidade do «recreio».

Uma pré-análise arqueológica permitiu-nos desencantar quatro números, todos de 1847 (um mês, feitas as contas), no que estamos de acordo com Gil do Monte [pseudónimo de Felício José Pássaro, que noutras circunstâncias chegou a assinar como Spartacus], historiador regional que publicou Jornalismo Eborense (1846-1976).

Parece pois que o nosso semanário não pegou, ou não lhe pegaram, mas a época era de boom gazeteiro (concorrência terrível) – ou como nos diz Gil do Monte, estavam «em erupção por todo o país […] as Gazetas, os Mercúrios e os Boletins». O mesmo autor recorda-nos que, em 1846, «o país foi fortemente abalado pelo movimento revolucionário que eclodiu contra o governo de Costa Cabral». O que até serve para explicar o ambiente militarista-borracho da graçola que já vais ler.

Voltando então ao primeiro número do Semanário Eborense… como poderás ver pelo excerto que se segue, há 159 anos havia problemas muito mais graves do que hoje em dia, e se a taxa de analfabetização, em lugar dos actuais 19% mais coisa menos coisa, se situava nos 91%, imagina tu, dentro dos alfabetos 9%, qual seria a percentagem com alcance e engenho para um humor deste calibre:

Em uma sexta-feira de Paixão, certo soldado tendo-se embriagado, perdeu o penacho da barretina em uma taverna, e dando depois pela falta quiz tornar à taverna para lá o procurar, porém vendo uma igreja onde se pregava o sermão da Paixão, imaginou que era a sobredita taverna, entrou com a barretina na cabeça, cambaleando, e arredando o povo, chega ao meio da igreja, volta-se para o pregador e diz: Não quero saber de…. lérias…. o que eu quero…. é o meu… penacho.

Ora aí está. Que dizer? Perante a evidência desta tirada, de nada nos serve saber que, na gíria, a “barretina”, boné militar, equivale a uma carraspana, ou que “dar ao penacho” significa pavonear-se. O resultado é o mesmo: perplexidade.

Porque se isto é uma anedota, amigo, e não uma charada, proponho-te então um exercício de imaginação: como seria uma depressão?

Sim, uma anedota é uma história caricata, sim, talvez até seja audacioso, para a época, chamar «lérias» a um sermão da Paixão na imprensa, mas mesmo assim…

Deixo-te com esta. E fica sabendo que esta anedota era a “melhor” das que lá estavam.

Recebe um abraço vertical deste teu,

Palmeira

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7 Respostas to “uma anedota de 1847”

  1. Bambi said

    nenuco, podes sempre responder com um poema da tua mãe…

  2. Nenuco said

    Queres tu dizer, do alto da tua vertical honestidade, que é preferível uma depressão em 2006 a uma mente sã há 150 anos? Uf, que sorte ter nascido nesta época. A partir de agora vou passar a dar valor a todas as coisas boas da vida.
    Quanto às sempre interessantes estatísticas das taxas de literacia, devo dizer-te que neste ponto, como em outros – está bem de ver – concordo com o Mestre Agostinho. Há pessoas que mais valia não terem aprendido a ler. E não é nenhuma espécie de elitismo, apenas a verificação empírica – continuo a citar, para não pensarem que as ideias “retrógadas”, “negativistas” e pouco “progressistas” são todas minhas – de que a muita boa gente a leitura não lhe dá prazer, nem de comer nem qualquer outra utilidade ou função acabada em “er”.
    Agradeço, no entanto, a tua sincera e determinada demanda de um anti-depressivo novecentista.

    PS. O poema da minha mãe ficará para breve Quem sabe, até faço uma parceria com ela.

  3. Palmeira said

    Isso quer dizer que não estás interessado na máxima moral? Tinha-a aqui mesmo prontinha dentro da cartola… adequadíssima para o teu wrestling com o Toni…

  4. Nenuco said

    Não, pelo contrário, como tive a felicidade de nascer em 1974, quero aproveitar todas as experiências que a vida tem para me oferecer. Inclusive, a possibillidade de aceder a uma máxima moral de há 150 anos.

  5. Toni Rebel said

    Tás a ver Nenucão,

    Se em vez de teres aprendido a ler, tivésses ido plantar batatas, eras muito mais saudável!

    (tenho que arranjar uns calções para o Wrestling)

    ;)

  6. nenuco said

    No 7º ano tive 4 ou 5 a hortofloricultura

    (para ser mais campal, devia ser luta na lama; mas um jogo de futebol em Mem Martins também serve, eu fico na equipa adversária)

  7. […] Na esteira do Pacheco Pereira no Público de hoje, mas ao sol bebendo uma margarita mata-bicho, embica-se na página 122 da revista Ver e Crer n.º 27 de Julho de 1947 e vem-nos à memória uma anedota batida que completaria nesse ano um século de velha. E pensamos que sim, houve um upgrade notório no humor português, em 100 anos a diferença é palpável a olhos vistos, para mais sendo a altura que era, o pós-segunda-guerra e tal. O turning-point no quarto parágrafo é de antologia. […]

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