FEBRAS – PARTE I

Sexta-feira, 27 Outubro 2006 (09:31)

Há pessoas que não gostam de ir às compras – outras fingem não gostar. São os homens os principais queixosos. Especialmente, quando a namorada decide mudar de trapinho (o que não é obviamente o meu caso) ou então durante a maratona natalícia, obrigatória para quem acalenta receber uns presentitos mais bem ataviados por parte dos familiares (e ver o esforço e a canseira de tamanha azáfama minimamente recompensados). Pois, em boa verdade vos digo que ir às compras é uma questão de contexto e, sobretudo, de se ser ou não afortunado com o vendedor que nos cabe em sorte. Apenas isso.
Pude comprová-lo ontem, quando a visita apressada a duas lojas conseguiu retirar-me da modorra de uma tarde de quinta-feira. Nada fazia prever situações caricatas ou anedóticas. Nada excepto a minha condução, plena de sentido de orientação, com o amigo que me acompanhava possivelmente a desesperar por detrás daquele semblante sereno – não o censuro, pois se o gajo ao meu lado se enganasse uma, duas, três, as vezes permitidas um tipo sem horários, e demorasse o quádruplo do tempo do que os transportes públicos, eu também exasperaria. Bom, mais ou menos atabalhoadamente, lá chegámos, imagino que para bem dos nervos do meu pendura. A primeira loja é uma Grow Shop, onde nos deslocámos por causa duma espécie de último grito tecnológico em voga neste próspero mercado. Um recipiente – perdoem-me a imprecisão fruto de uma ignorância nada velada – com umas saliências pontiagudas e verticais onde são depositados alguns farrapos de erva. Mas este não é como os outros. Um portento de inovação, que permite acumular os resíduos – a enevoada definição continua a ser da minha total responsabilidade – que podem ser transferidos miraculosamente para um cachimbo. O lojista descreve as possibilidades infinitas do objecto com orgulho incontido… ok, estou a exagerar, o mais provável é que o tipo, dadas as circunstâncias, ache tanta piada àquilo como à fechadura de uma porta. A relação preço-qualidade entre os vários modelos provoca alguma hesitação na compra. Do outro lado do balcão sucedem-se as vantagens e desvantagens de cada um dos exemplares, como a mesma convicção de um vendedor de aspiradores, mas com doses de humor e espontaneidade bem mais interessantes. Decisão tomada. O vendedor faz as contas e conclui que o meu amigo terá de ficar a dever 60 cêntimos. Não, afinal, ele tem os 60 cêntimos, o que baralha os cálculos do “grow seller”. Negócio fechado. Não, ainda não. Conversa puxa conversa e vem à baila uma nova marca de mortalhas. Não leva químicos, corantes nem conservantes. Diáfana como um vidro polido. É assim a celulose. E as coisas que um gajo aprende num sítio destes.
Já íamos a meio da rua quando o gajo da Grow nos faz sinal. Tinha-se enganado na contabilidade e, afinal, era ele em quem estava em falta com quase cinco euros. Refazemos o caminho e, agora, depois do pão dos deuses para o espírito, é a vez de um muito mais prosaico alimento para o corpo. Pá, preciso de comprar umas febras. Decidimo-nos por um talho em vez de um supermercado. Aviam-me cinco nacos e pago. E, pronto, concluo a tarde de compras a ouvir um sermão por ter sacado do multibanco. Na loja, alguém se tinha esquecido de avisar que, segundo a política da casa, só se aceitam cartões relativamente a despesas acima dos cinco euros. Nesse mesmo dia à noite, o DocLisboa haveria de me dar um sermão bem pior ao fazer-me sentir culpado por comer qualquer espécie de febra. Superior ou inferior a cinco euros.

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10 Respostas to “FEBRAS – PARTE I”

  1. Deixa-me adivinhar… a Parte II vai consistir na forma como tu puxaste do teu fabuloso receituário e, qual Pantagruel sem necessidade de gorro (por razões óbvias), farás as delícias dos convivas.
    Se a comida não resultar, há sempre a sobremesa.

  2. Toni Rebel said

    Eu gostava mesmo era de experimentar esse aparelho…!;)
    Embora desconfie que já tive um(magnifica oferta da Bambi côxa), mas pela explicação ainda não cheguei lá…
    :)

  3. Espalha Brasas said

    Não me digas que foste ver aquele doc dos patos que são depenados, onde só se ouve aquele barulho ensurdecedor e desesperante dos bichos…

  4. Nenuco said

    Mariachi: o prometido é devido e a parte II segue dentro de momentos.

    Toni: Gostava de te ajudar, mas não sei mesmo o nome da coisa. A cena é circular, permite triturar a erva e, em alguns casos, uma fina rede no fundo do recipiente guarda os resquícios.

  5. Nenuco said

    Acertaste no pato. Bom apetite para todos!

  6. Bambi said

    Sim, Toni, é parecido com aquele que te ofereci (e que tu, descaradamente, perdeste!), mas muito mais sofisticado

  7. Bambi said

    Nenuco, na parte II, não te esqueças dos refogados com a colherzinha de pau, que tu tanto aprecias!

  8. Toni Rebel said

    LOL

    Sim bambi manca, com muita pena minha perdia-a.

    Pior do que isso é que desde aí não me lembro de ter necessidade de a usar…não sei se me entendes…..buááááá.!

    O Nenuco utiliza os refogados da Knorr com uma colher de pau…feito????(lol. não resisti…)

    Desculpa a vulgaridade , é o Toni que há em mim…
    ;P

  9. Palmeira said

    Nenuco, para que conste, o utensílio chama-se um “shredder” (triturador), e no caso especial que me parece que referes, a ideia é recolher o THC/pólen num contentor à parte (sob uma espécie de peneira), para mais tarde recordar.

  10. nenuco said

    Nada como uma boa explicação científica! Obrigado.

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