Conto de Natal III

Quinta-feira, 30 Novembro 2006 (23:22)

Eia man! hoje fui ao Celeiro ali do Rossio e passei-me, aquilo parecia tipo supermarket from hell não tás a ver bem, uma luz assim tipo amarela e as pessoas com ar doente estilo zombies a arrastarem-se pelos corredores à procura de vitaminas e cenas sem glúten…

E tu foste lá fazer o quê?

Fui à procura de quinoa… são umas bolinhas tipo alpista mais mais moles e todas amareladas

É o quê?

Epá é um cereal acho que africano

Bom?

Ya… é fixe pó muesli

Pó quê?

Epá caga nisso, olha lá a outra cena perguntei pla quinoa a uma empregada e ela partiu-se a rir e foi-me mostrar uma prateleira vazia a dizer que já não havia e oh, ainda há bocado havia e…

Mas estava-se a rir de ti?

Não era duma cena que outra que estava lá disse uma cena qualquer delas, elas têm que estar ali paradas nos cruzamentos dos corredores alinhadas à espera que lhes perguntem cenas, qualquer cena, e eu antes tinha perguntado a uma que estava a arrumar mas essa não era das que dão respostas e mandou-me logo falar com as outras

Foooda-se…

Ah e pior, quando essa que se tava a rir bazou dali de volta para o posto dela e eu olhei, a quinoa estava lá duas prateleiras ao lado foda-se pá chavala… E uma velha que lá estava a entrar quando eu ía a sair? grandalhona estilo vestida para andar em Moscovo mas chanfra só a fazer perguntas estúpidas à empregada da caixa que era ucra olha-me bem a velha man, a embirrar e a falar bué da alto tipo com um pão dos cinco chakras na mão a dizer que o pão tinha um preço de cada lado e que não eram iguais e qual é que era o preço se três e vinte se um e dez e o que era aquilo e a chavala da caixa a revirar os olhos e a mastigar uma pastilha e a responder-lhe ao retardador que era uma promoção e a velha a dar-lhe que se há promoções têm que estar à vista e ela não estava a ver nada e o caralho para aquela merda foda-se, entras lá tens logo um radiador por cima da porta da entrada a torrar-te o cérebro, asssustei-me man, à saída tive que me agachar feito junkie com o meu saquinho de plástico

Ganda cena!

Ya e comprei uma empada de cogumelos que era shit

Foste lá só pra comprar essas duas cenas?

Não, trouxe um pão de trigo sarraceno ó que é uma merda desse género, e uns iogurtes de aloé, lá são mais baratos

Foooda-se, aloé? Tás feito um panilas… onde é que vais ver a bola amanhã?

No Alves

Qual é esse?

Epá é um restaurante mítico tipo casa do Benfica o gajo tem lá uma bandeira gigante do tamanho desta parede e tem tipo as paredes forradas de bilhetes de há bué, a homenagem ao Veloso, a inauguração do novo estádio da Luz, o mundial de juniores e o caralho a sete, não tás a ver bem, garrafas de vinho tinto do Benfica e branco e um bolo que é o Mantorras, de chocolate com natas à volta e vermelho por cima

Eh eh eh

Deve ser geleia de morango ou uma cena assim, mas o gajo é à maneira, man, ele e o empregado, eia o empregado, parece aquele velhinho do Benny Hill que levava os tapas na tola tap tap tap lembras-te?

Ya!

Só que com um nariz maior e todo espevitado, uma vez vi-o a enfiar uma caralhada no nariz de um gajo do Sporting que estava lá a jantar quando foi golo do Benfica, mas os gajos são muita fixes, o Alves e o empregado, são muita loucos, à maneira, aqui há tempos fui lá ver o Sporting para a liga dos campeões com o Bayern, em Munique, e não jogava o Benfica e o Alves até acho que queria ver outro jogo tipo o Chelsea Barcelona, e pôs no Sporting man, lembras-te desse jogo, o zero a zero que a gente podia ter ganho mas fomos roubados, e eu juro-te que o Alves estava a sofrer pelo Sporting, havias de ver, o gajo é daqueles à antiga são equipas portuguesas são equipas portuguesas e bora lá puxar por elas

O gajo é cota?

O Alves?

Sim

Não, é uma beca mais velho ca gente mas não tem ar de ter quarenta

Ya acho que já ouvi falar desse place, é ali em Alcântara né?

Ya é mesmo esse. Quando vou lá ver o Sporting com o Benfica o Sporting ganha sempre. Então e tu?

Eu o quê?

Onde é que vais ver a bola?

Não digas nada pá tenho um jantar na casa da sogra da minha chavala vêm cá uns tios delas que estão na Suíça há colhões ó caralho, foda-se não vai dar pra estar a ver o jogo na calma porque os finórios “não gostam muito de futebol”

Então… mas têm sport tv?

FODAAA-SE O JOGO DÁ NA SPORT TV?

Epá não sei bute aí a ver no jornal, olha ali naquela mesa, calma man

ó Norbert, sabias que o Garrett…

Quinta-feira, 30 Novembro 2006 (16:29)

E pronto, está  a primeira das entrevistas ditas “históricas” pela simples razão de terem sido realizadas há bué. Esta, ao Norbert Trenkle, é de autoria minha e do Banhadas, nas seguintes proporções: ele leu o livro e eu li umas cenas sobre o grupo Krisis, combinámos as perguntas e fomos entrevistar a um escritório de um advogado amigo do Trenkle, na Almirante Reis ali ao pé do Ramiro, porque acho que era esse o dia em que o livro ia ser apresentado na Abril em Maio. Tínhamos estado na Ler Devagar e acertámos que essoutro era o dia mais a jeito das várias partes. Ora o Banhadas faria as perguntas (e quem o conhece quase consegue ouvi-lo ao lê-las) e eu tirava as fotografias e metia a colher quando fosse (mesmo) “preciso”. É claro que as fotografias ficaram uma bosta, daí que my sister=my clock tenha inventado a belissima ilustração que acompanha o texto, baseada nalgumas dessas photos horribilis. Depois, transcrevi, ordenei, cortei e escrevemos a introdução. Estava para sair na Número ou na Ópio, mas claramente não tem nada a ver com uma nem com outra revista. Ainda tentei a Utopia, mas a anarquia tem dias. Assim, em vez de ir para o lixo ou ficar esquecida, fica para aqui, que é mais ou menos um meio termo das duas coisas.

filopublica26nov

[isso era dantes, Maria]

Margarida Rebelo Pinto foi plagiada

Quinta-feira, 30 Novembro 2006 (10:01)

Parece que afinal também existem autores estrangeiros a plagiar os nossos escritores. Segundo uma fonte fidedigna (pelo menos tão fidedigna como aquelas que subscrevem os plágios de Sousa Tavares e Saramago), Margarida Rebelo Pinto foi plagiada por uma escritora venezuelana. Ao que consta, depois de Margarida Rebelo Pinto ter sido plagiada por Margarida Rebelo Pinto, a escritora portuguesa sofreu novo plágio, subtil aos olhos mais incautos, mas evidente para o leitor mais perspicaz, desta vez, da sul-americana Conchita del Corazón. Quando li o mail que me enviaram não acreditei, mas após aturada exegese pasmei diante das semelhanças. Senão, compare-se os seguintes excertos de Vou Contar-te Um Segredo e de Escucha, Joda-se! Te Vou Hablar de un Secreto.

“A vida é tua, tens de ser tu a vivê-la, não podes deixar que ela passe por ti, tu é que passas por ela. E quando todas as laranjas caírem, apanha-as com cuidado, guarda-as num cesto e muda de profissão.”

“La vida es de usted, tienes de ser usted a vivir la misma, joda-se! Non puedes te permitir que la vida pase delante de tus ojos, es usted que tienes de pasar delante de la vida, cojones. E cuándo las naranjas se quédan, putas!, coge las mismas en una cesta e cambia de profesión”.

O insólito da situação é que a alegada plagiadora quer processar Margarida Rebelo Pinto. Conchita del Corázon, que era uma das mais bem sucedidas escritoras venezuelanas, queixa-se da fraca procura dos leitores – até à data parece que apenas duas actrizes de telenovelas, duas ex-misses Mundo e um realizador de filmes para adultos compraram a obra – e teme que nenhuma editora lhe volte a dar trabalho depois de um livro tão medíocre. Em declarações a uma televisão venezuelana, Conchita lamentou o sucedido, “si yo hay sabido que es tan mala, teneria plagiado Equador o Las Intermitencias de la Muerte”, e prometeu levar Margarida Rebelo Pinto à barra do tribunal. Conchita explicou ainda que decidiu plagiar Margarida após umas férias no Algarve, quando, na Praia do Gigi, perguntou a um namorado de Verão quem eram as melhores escritoras portuguesas vivas. “El cabrón me ha dito Sophia de Mello Breyner e Margarida Rebelo Pinto. Fue un tal de Santana Lopes”.