A arte é a…arte

Quinta-feira, 2 Novembro 2006 (19:08)

Após décadas de penoso hiato, a saudosa revista Ver e Crer retoma as suas actividades em 2007. Além dos didácticos artigos “Plutão…Vida, Morte e Reencarnação de Um Planeta”, “Deus, Pós-Modernistas e o Código de Avintes”, “Das Piadas de Caserna ao Gato Fedorento” e “Patologias Crónicas nos Carvalhos de Odemira a Aljezur”, o magazine cultural vai publicar uma entrevista com o multifacetado criador Nenuco. Uma conversa transpessoal e retransmissível.

Ver e Crer – Como teve a ideia de criar as personagens Urso Escocês, Minhota e Moura Encantada?
Nenuco – Bom, em primeiro lugar, queria agradecer o apoio da minha mulher, da minha família, próxima ou distante, e dos meus amigos, próximos ou distantes. Sem eles teria sido difícil, se não mesmo impossível, criar o Urso Escocês, a Minhota e a Moura Encantada. Em segundo lugar, pretendo realçar que a Moura encantada é uma co-criação, com o meu colega e amigo Palmeira. Ele teve um trabalho extraordinário, pá…Não poderia deixar de referi-lo, percebes? Em relação às personagens…Eh, pá, sabes que é um bocado complicado falar das nossas próprias criações…

Ver e Crer – Por causa da dor e da angústia que brotam do acto criativo?
Nenuco – Não. É por causa dos comprimidos que estou a tomar, pá. Se me esqueço de tomar um, não durmo nada e depois é uma chatice. Não consigo pensar, tás a ver? Qual era a pergunta mesmo?

Ver e Crer – Tinha dito que é difícil falar sobre a criação de uma personagem?
Nenuco – É, é difícil, especialmente porque nunca me consigo lembrar do que aconteceu nessas noites.

Ver e Crer – Agora, sim, está a falar da dor e da entrega que o processo criativo exige, como se ficasse consumido pelas personagens e não se lembrasse da sua génese…
Nenuco – Eh, pá, não. É que não me lembro mesmo de nada. Os anti-depressivos e o álcool, aquilo é cá uma mistura que um gajo fica logo para lá de Marraquexe. Ah, por falar em Marraquexe, isso lembra-me uma personagem que criei.

Ver e Crer – Sim, já lá vamos. Gostava que nos explicasse como concebe as suas personagens?
Nenuco – Sabes, não é bem conceber. A arte é uma coisa difícil de explicar. Um gajo vai buscar as ideias como se elas andassem aí no ar, tás a ver? Parece que não somos nós, parece que alguém ou algo está a criar no nosso lugar. É difícil falar disto…

Ver e Crer – Ah, isso é muito interessante. Há muitos artistas e intelectuais que falam dessa sensação. Uma ideia um pouco platónica…
Nenuco – Exacto. Eu também me sinto como se fosse uma aletria numa caverna. A cena das sombras e da luz, tás a ver?

Ver e Crer – Quer dizer alegoria da caverna?
Nenuco – Exacto, exacto. É uma necessidade de transcender, percebes. De veres para além do dos sentidos. No fundo, não andares aí em carneirada, com uma cenoura à frente do nariz.

Ver e Crer – Agora, confesso que não percebi a relação?
Nenuco – Pois, acho que eu também não. Pronto, mas o que importa a reter é a cena da luz e das sombras e da caverna. Há um processo, percebes, há uma dinâmica importante nisto.

Ver e Crer – Pois, e a arte? O que significa a arte para si?
Nenuco – Eh, pá, lá estás tu com essas perguntas! A arte é…a arte. A arte é a vida. A arte é o amor. A arte és tu. A arte sou eu. A arte é o Mundo, percebes.

Ver e Crer – Mudando, um pouco de assunto, ouvi dizer que gosta muito de futebol.
Nenuco – Sim, estava a ver que não tocava nesse ponto de matricial relevância. A relação dialéctica e a hierarquização lógico-estética que construo durante o processo de análise ontológica que ocorre concomitantemente ao complexo debate de forças, intenções e logos vitae em torno de um exigente exercício de habilidade mental e motora que opõe, numa dinâmica holonómica, vinte e duas entidades psicofísicas, vulgo partida de futebol, é verdadeiramente crucial na estruturação da minha vida. O mecanismo de decalcamento dos protótipos humanos, ideais ou não, assenta numa singularidade de princípio forte que condiciona todas acções pensantes e intelectualizantes do modus vivendi quotidiano.

Ver e Crer – Ah, estou a perceber. O futebol inspira-o no seu processo artístico…
Nenuco – Eh, pá, não, pá. A arte…a arte é uma cena diferente, tás a ver?. É a vida, és tu, sou eu…

Ver e Crer – Então, o futebol é só divertimento?
Nenuco – Bom, essa secular prática de desenvolvimento dos processos e princípios vitais do corpo e de elevação extática do espírito merece aturada análise e equacionamento silogístico, conquanto a sua ponderação de categorias e sub-agrupamentos de estados de ser seja um referencial nuclear na elaboração formal de uma taxinomia de estudo da abstracção humana. Repare: há valores de contradição e antítese absolutamente relevantes que têm de ser reajustados a uma praxis…

Ver e Crer – Desculpe, mas parece falar de futebol como se estivesse a falar de uma elevada forma de arte?
Nenuco – Eh, pá. A arte…a arte é uma cena. Sabes, é assim como a vida, percebes, pá? É lixado, meu…A arte é…a arte.

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8 Respostas to “A arte é a…arte”

  1. freaky said

    O que eu curto de uma praxis ;-) A arte é f****a Nenuco!

  2. nenuco said

    Olha quem é a artista! Então, o Tate e a National Gallery estavam bonzinhos?

  3. Espalha Brasas said

    Então e blogonovela?

  4. Palmeira said

    Posso pôr uma fotografia da personagem «Na Roça com Nenuco»?

  5. Ó Cary Grant do Poço do Borratém…

    …eu gostava mesmo era de ver-te fazer de Santanette com Pulgas!

  6. Nenuco said

    Não, não há fotos. Quero que as pessoas criem, imaginem e sejam elas as artistas das suas próprias personagens. Porque a arte somos todos nós.

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