MICRONOTÍCIAS

Quinta-feira, 2 Novembro 2006 (17:09)

Não sei se é acaso, sincronicidade ou simples lobby político. Mas sempre que os donos (convenientemente incógnitos, pois claro) de uma fábrica decidem trocar a Beira-Baixa ou Trás-os-Montes por Mustawar ou Pajistan a as estações de televisão, como se tivessem combinado agendas, apressam-se a dar conta das histórias heróicas e de lágrima fácil do Sr Arlindo e da Dona Efigénia, que só não estão a passar fome por causa do microcrédito. Em vez de procurarem responsabilidades e averiguarem os contornos das fugas de tão idóneos empresários, os chefes de redacção e directores dos canais (igualmente idóneos) mandam os jornalistas (Bobby, busca, busca) entrevistar abstrusas directoras de centros de empregos regionais para despejarem chorrilhos de lugares comuns sobre os seus redentores programas de financiamento. E, pronto, ficamos a saber que o Chico Maneta, depois de ter sido despedido sem justa causa da empresa de onde todos meses levava para casa 65 contos (em escudos ainda parece menos), tinha dado uma volta à sua vida devido à boa fortuna dos microeuros.
Agora, montou uma mercearia em Ferreira do Vouga e, no fim do mês, saldadas todas contas da loja, consegue pagar o quarto de pensão, que partilha com um antigo colega serralheiro, e enviar um envelopesinho (o “inho” é fundamental para exacerbar histórias folheadas a choro e à melancolia lusa do “ai, a vida é assim”) com cinco contos para a mãe, que vive em Golpilheira da Serra, a 70 quilómetros de distância, que mais parecem 200. O colega, mestre de ofício, continua no desemprego. Diz que herdou do pai o jeito “pr’a trabalhar a madeira” e nunca acreditou que o negócio de família encerrasse as portas. Está há ano e meio a viver de biscates e de uma única refeição quente por dia. Jacinto, o nome foi escolhido pela falecida mãe, não teve direito nem a cinco segundos de fama no Jornal da Noite. Afinal, o seu pedido de microcrédito não foi considerado indispensável para a economia da região. Jacinto é um looser, como se diria nas Américas (ao menos, se tivesse emigrado para o Canadá, como o Ti Armindo e o Zé das Vacas!), e desses não reza a história, como se conta por cá. E, tristeza por tristeza, mais valem as histórias lamurientas da Flor ou o pobre fado que calhou em sorte à freira boazona e de lábios carnudos da TVI. Quem sabe, talvez o Jacinto aprenda a fazer broches. E acabe num casting de televisão.

PS. Espero não ser acusado de despejar vilipêndios de cariz comuna-marxista em foice alheia. E, se repararem bem, não poupei nos elogios à talentosa Rita Pereira (“boazona” e “lábios carnudos”), tendo-me ainda coibido de recorrer a outras expressões na possibilidade da Five Stars visitar este blog. Claro que o uso daqueles termos prendeu-se também com a necessidade de recrutar mais atrofiadinhos que andam no Google à pesca de bacalhau com todos, mamas, grandes e pretas.

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4 Respostas to “MICRONOTÍCIAS”

  1. Toni Rebel said

    Claro, claro Nenuco,

    Um intelectual… não liga a essas merdas…tavas a ir tão bem…

  2. Espalha Brasas said

    Castings? Falaste em castings? Isso é comigo. Arranja lá o contacto do senhor que eu vou ver o que arranjo.

  3. Nenuco said

    Arranja um casting para o Toni.

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