uma publireportagem de 1947

Quinta-feira, 2 Novembro 2006 (12:09)

Na esteira do Pacheco Pereira no Público de hoje, mas ao sol bebendo uma margarita mata-bicho, embica-se na página 122 da revista Ver e Crer n.º 27 de Julho de 1947 e vem-nos à memória uma anedota batida que completaria nesse ano um século de velha. E pensamos que sim, houve um upgrade notório no humor português, em 100 anos a diferença é palpável a olhos vistos, para mais sendo a altura que era, o pós-segunda-guerra e tal. O turning-point no quarto parágrafo é de antologia.

Trivia [edição Século do Povo]: qual o nome do médico francês?

jpp

O sentimento do medo

O medo tem sido descrito por médicos, psicólogos, contistas. Um médico francês, analisando esse fenómeno sob um ponto de vista especial, pretende encontrar a ideia, a imagem, o estado que provoca o medo. E começa por distinguir a causa imediata dessa psicologia, a qual, na sua opinião, parece estar no organismo. O sentimento do medo é, geralmente, assinalado por uma perturbação geral do corpo: o coração palpita, a garganta contrai-se e seca, os membros parecem paralisados, as vísceras encolhem-se.

Qual o motivo que produz essa alteração criada pelo medo? O investigador quer que essa causa esteja dentro de nós e seja uma causa psicológica – o temor. O perigo mais grave, se é ignorado, não produz medo, declara ele. As causas do medo podem reduzir-se a quatro: o medo da morte, do desconhecido, dos sofrimentos físicos e das emoções. À primeira vista poderia julgar-se que o laço entre essas quatro espécies de medo seria sempre a dor ou o mal que ela nos causa; mas, observando atentamente os factos, reconhece-se que, em certos casos, se produz medo ante a esperança de um prazer ou de uma alegria.

Em conclusão, o investigador entende que o homem ou a mulher é um ser essencialmente conservador e tudo quanto contraria os hábitos adquiridos ou quebra a continuidade da sua vida é contrário à sua natureza e causa o medo.

Está tudo muito bem. Toda a gente pode ter medo da morte, do desconhecido, do impalpável e das desgraças e horrores que enlutam a Humanidade; só do que ninguém deve ter medo é de comprar meias no Rei das Meias, Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 32 (ao Chiado) em Lisboa, porque quem as compra ali uma vez sabe que não é enganado, e quando não agrada o artigo é trocado ou devolvida a importância dispendida, a todo o tempo.

Lembramos que esta casa tem a maior colecção de meias Nylon (vidro).

59anos

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A Ver e Crer [cada assunto vale um livro], dirigida por José Ribeiro dos Santos e Mário Neves, pode caracterizar-se como uma espécie de Selecções do Reader’s Digest para as classes A e B, feita em Portugal por jornalistas e escritores portugueses, focando-se na ciência, na literatura e nas artes, cultura, política e sociedade, com muito pouca palha e um sentido cívico “progressista” e globalizante. Só neste número 27 tínhamos artigos com nomes sugestivos como «A pesca da baleia», «Marconi, o “feiticeiro do eter”», «O primeiro comboio», «O nosso avô-macaco», «A Ásia e os seus problemas», «Os arquivos secretos de Hollywood», «A locomoção dos peixes», «Matemática amena», uma antevisão do próximo romance de Carlos de Oliveira pelo próprio, uma análise da vida e obra de George Sand, e uma dissertação sobre as novas descobertas na superfície de Marte. E só listei metade. Nos próximos dias, prometemos a divulgação de mais algumas páginas.

[Caso deseje aprofundar as suas leituras de uma forma mais light sobre o tema “Rei das Meias”, que ainda existe no Chiado, sugerimos a leitura de umas memórias de infância da Margarida.]

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3 Respostas to “uma publireportagem de 1947”

  1. Toni Rebel said

    Será que existe diferença entre medo e fobia???

  2. nenuco said

    Este post trouxe-me à memória dois ditados típicos do Reguengo do Fétal: Quem não sabe é como quem não vê e o Saber não ocupa lugar.

  3. […] pensei que gostassem de saber que na página ao lada da publireportagem alarmista estava este anúncio: […]

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