O talho

Domingo, 12 Novembro 2006 (14:33)

“Mais vil do que um bordel,
O talho rubrica a rua como uma afronta.
Sobre o dintel
Uma cega cabeça de vaca
Preside ao conciliábulo
De carne berrante e mármores finais
Com a majestade remota de um ídolo.”

Jorge Luís Borges

Todos os dias, de manhã, eleva os olhos do naco de porco quando ela passa pela rua a caminho do trabalho. A faca fica suspensa na mão, descendo depois, mecanicamente, sobre aquele monte de nervos e sangue, quase raspando no movimento enérgico os dedos anafados da outra mão, que estreitam com força o pedaço de carne. A língua molha os lábios finos num gesto rápido. E a cena termina em poucos segundos. Até se repetir ao final da tarde, quando ela regressa a casa.
Porém, há dias em que, antes de entrar no prédio, aqueles dois pé pequenos, em débil equilíbrio sobre uns saltos afiados como agulhas, transpõem a porta de vidro, os olhos perscrutando a montra onde se amontoam salsichas, febras, frangos, a cabeça de um cabrito. Do outro lado do balcão, as pernas subitamente fracas, os olhos papudos piscando, nervosos, ele pergunta o que vai ser hoje, senhora? Ela franze o nariz enquanto olha para a montra. A seguir, levanta os olhos submersos em sombras lilases e rosa. Pede quatro costeletas. O talhante acena nervoso com a cabeça, uma boa escolha, e elege a melhor peça, pegando-lhe com carinho. Corta as fatias bem finas – conhece-lhe os gostos – e, com a voz no limiar do sofrimento humano, prestes a desabar em lágrimas, pergunta mais alguma coisa? Que diga que sim, que permaneça mais uns minutos, para que ele espreite a medo o corpo perfeito, a pele rosada como a de um bife de peru, as coxas como as dos frangos, redondas, os seios pequenos empinados e hirtos, feitos de matéria rija, de pedaços suculentos de rosbife. Um apetite que o desatina, lhe atiça o desejo como se estivesse deitado sobre carvão quente. Mas não, ela despede-se, boa noite, e afasta-se. O homem do talho permanece em silêncio.
Começa a arrumar a loja como se uma sombra tivesse descido sobre si. O dia terminou. É altura de dar início a um ritual que cumpre à perfeição. Como um sacerdote. Como Deus quando coloca em ordem o caos universal. Primeiro, recolhe cada peça de carne e remete-a para o lugar certo na imensa arca frigorífica, uma antecâmara do santuário, um gineceu onde cada peça de carne – ah, a pessoa feminina inteira contida nesse vocábulo – encontra o local certo, protegido contra a cobiça dos outros. A seguir, limpa o balcão sacrificial, o altar de uma religião de vísceras e de sangue, de hóstias conspurcadas pela matéria perecível. Só depois apaga a luz, certifica-se que o alarme está ligado e olha em redor. Com amor filial, fecha a porta, com três voltas da chave. Atravessa a rua para o prédio em frente, sobe dois lanços de escada e está em casa. Senta-se no sofá, tira os sapatos, suspira… E vai a janela espreitá-la. Áquela hora, ela deve estar a jantar. Não se engana. Consegue vê-la sentada à mesa da cozinha, as pernas cruzadas, a blusa semi-aberta, o cabelo informalmente preso. Ela come. E nesse simples acto de digerir, comum aos homens, às vacas, aos porcos e ao resto do mundo animal, ele vê-se a possuí-la, porque aquela carne que entra no seu corpo, que desce pelo esófago até ser afagada pelas paredes do estômago, que se transforma em merda nos intestinos, que será expelida na manhã seguinte, num momento orgástico, é a carne dele, que contaminou com os dedos, ligeiramente suados. Masturba-se. Um acto mecânico, enquanto a olha, sentada, sozinha, na mesa da cozinha. Toma-a inteira naquele naco de nada que ela ingere, distraída, a espreitar as imagens na televisão, amanhã o que vou fazer com mais um dia. Ele leva o acto até ao fim, sem desviar o olhar, os dedos gordos sem parar, para cima, para baixo. Por fim, resfolega. Os lábios esboçam um beijo na direcção da mulher do outro lado da janela. E fecha os estores.

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5 Respostas to “O talho”

  1. Palmeira said

    Sunday Poster… muito bom!
    Sexo, repugnância, voyeurismo e Class Gap, com tensão dramática (quase) até ao fim.

    Só uma pergunta: porquê arquivar em Jornais Velhos?

  2. Nenuco said

    Tive o privilégio de ler este texto muito antes dos restantes leitores e blogers. E ora aí está mais um argumento de peso contra aqueles que usam estatísticas de supermercado e álgebra pouco “descartiana” para quantificar o lixo da blogosfera. Grande Five Stars.

  3. Toni Rebel said

    Tá giro!

    O garagem hermética teve a gerir um talho…não havia era carne…desta…mas foi o talho que imaginei qdo li o post..

    :)

  4. Fujiya Miyagi said

    Mûte bên, já cá tôu!

  5. freaky said

    Muito bom, e eu ainda tenho o “tomo” dela para ler, vergonhoso, mams tenho tanta leitura para colocar em dia, sei que não é desculpa, ams vida de manicure…

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