Pacheco Pereira na Gaiola de Faraday

Segunda-feira, 13 Novembro 2006 (20:08)

“…a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas”

“(O mal) está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima”

José Pacheco Pereira (www.abrupto.blogspot.com e Público de 9 de Novembro de 2006)

Afirmou há dias o Dr Pacheco Pereira, com abrupta (ou será abstrusa?) propriedade, que costuma ter dias muito nãos, dias assim-assim e às vezes dias sim na imprensa indígena. Umas linhas e uns posts abaixo, com a mesma abrupta acutilância, discorria sobre o rigor, ou a falta dele, dos blogues e da comunicação social cá do burgo. Pois eu disse logo de mim para mim que ele não podia falar com maior conhecimento de causa. Em matéria de falta de rigor, o Dr Pacheco Pereira ganha com distinção à cabalística Esther Mucznik, ao profético César das Neves e ao fantasista Bernardino Soares. Com a diferença de que as opiniões destes não fazem mossa nem provocam efeitos colaterais visíveis – para amargo de boca da pobre Esther. Ao contrário, ao Dr Pacheco Pereira basta respirar para a massa crítica do país fazer a vénia devida e respeitar com sentido de lei os seus regurgitados sofismáticos.

Lembro-me que aqui há meia dúzia de anitos o venerável e venerando Dr Pacheco Pereira esqueceu-se do rigor na gaveta e cometeu a proeza de encher abruptamente uma página de jornal do Diário de Notícias com “especulações, ignorância, erros, presunção, boatos e insinuações”- coisas sinistras como quando se abrem folhas de revistas e de jornais ao acaso -, que causaram “mortes” e “feridos” graves numa equipa de investigadores da Universidade do Minho, que contava com a aprovação do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Foi o meu dia muito não nos jornais portugueses. Desconhecia há data, e ainda hoje, que os pareceres oficiosos do Dr Pacheco Pereira se sobrepunham à autoridade e aos conhecimentos científicos dos reitores nacionais. O que é certo é que assim que o cronista desatou a zurzir nos investigadores a mesma comunidade académica que tinha legitimado a pesquisa tremeu como varas verdes e o projecto de investigação quase sucumbiu no rescaldo da “rigorosa” argumentação do Dr Pacheco Pereira. Quase não, pois daí a poucos anos o Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais acabaria mesmo por fechar as portas. A razão? Bom, desconhece-se se o artigo do DN terá pesado mais do que a avaliação dos reitores que presidem às Bolsas da Fundação Bial. Mas não deixa de ser bizarro que um artigo de opinião de um leigo na matéria tenha merecido consideração suficiente ao ponto de fazer soçobrar um júri constituído por cientistas de insuspeita credibilidade. Seria o mesmo que termos o Engº Sousa Veloso, no saudoso TV Rural, a pronunciar-se sobre geometria fractal ou a simetria das supercordas.

Então e o que afirmava em bom e escrupuloso rigor o Dr Pacheco Pereira? Parece que a descoberta da roda, segundo o acolhimento entusiástico da sempre bem informada opinião pública, provincianamente embevecida com os milhares de volumes da biblioteca de Alexandria do talentoso opinion-maker – ai ele é tão inteligente! e tem tantos livros! e com aquela pêra solene vê-se mesmo que é um homem culto! Só que, em rigor, limitava-se a pedir a fogueira para os “charlatães” que andavam à “caça de fantasmas e fluidos ectoplásmicos” nas casas assombradas das nossas avós. É que os livros que o Dr Pacheco Pereira andou a ler sobre o assunto – também gosto muito da Biblioteca Nacional, mas a colecção de Lauro Trevisan está longe de ser uma referência na área dos estudos da mente – ainda deveriam ser do tempo da nossas bisavós e das famosas Sociedades Psíquicas de Londres e Nova Iorque, onde físicos e ocultistas travavam razões à mesma mesa (antes de universidades a sério como Harvard, Princeton, Amesterdão e Edimburgo se dedicarem a tão “exótico” tema). Vai daí e com o mesmo rigor dos jornalistas e blogers que tão elegantemente deprecia, o Dr Pacheco Pereira que se deverá ter esquecido de ler os pouco abruptos posts das Actas dos Simpósios da Fundação Bial, não se apercebeu de que o Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais tinha como único objectivo fazer um levantamento sociológico das crenças dos portugueses no “paranormal”. Tal como ele por certo anuiria, caso tivesse preparado o assunto com o rigor que gosta de exigir a terceiros, os cientistas que “queimou em acto de fé público” queriam apenas desmistificar atitudes irracionais e crendices populares profundamente enraizadas na população portuguesa.

Claro que o grosso dos seus leitores e até os habituais críticos aplaudiram de pé – talvez o palavreado fácil seja a única coisa que conseguem pôr em pé – o Dr José TORQUEMADA Pacheco Pereira. Possivelmente, nas bibliotecas que estão habituados a frequentar escasseia a literatura científica séria e rigorosa. Estivessem eles, e o Dr Pacheco Pereira, preocupados com o rigor das suas providenciais leituras, poderiam ter verificado que no século XXI os cientistas das áreas de fronteira já não caçam fantasmas nem sondam casas assombradas à procura de filamentos de ectoplasma. Geradores de números aleatórios, Paradigma Ganzfeld, Medição neurofisiológica de indivíduos em Estados Alterados de Consciência e Gaiolas de Faraday são “novidades” que o prestigiado intelectual parece desconhecer. Gostava, por isso, de propor à comunidade científica, obviamente com a aprovação do Conselho dos Reitores das Universidades Portuguesas, que se envie o Dr Pacheco Pereira para uma Gaiola de Faraday de modo a que ele comprove in loco as metodologias que lhe parecem ser tão estranhas. E, para que a pesquisa possua um protocolo rigoroso, deverá ficar estipulado que ele só terá ordem de soltura da Gaiola quando forem encontradas armas de destruição em massa no Iraque. Assim, a experiência terá o mesmo rigor e coerência a que o Dr Pacheco Pereira está habituado.

Parafreaseando o que o Dr Pacheco Pereira escreveu a propósito dos blogues, direi que tratar os artigos de opinião como um quiosque de jornais indeferenciado é deitar fora o menino com a água do banho. Por isso, em breve irei falar dos 10 por cento, número optimista, eu sei, dos artigos de opinião que vale a pena ler nos jornais portugueses.

À falta de cronistas com a decência mínima, deixo-vos com a decência máxima do Professor Carvalho Rodrigues:

“Os investigadores destes fenómenos extraordinários não têm que se sentir envergonhados por não terem a ‘chave’, porque em muitas áreas científicas e em situações humanas também se desconhece a forma como acontecem as coisas”

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19 Respostas to “Pacheco Pereira na Gaiola de Faraday”

  1. freaky said

    Nenus, vai às respostas do “Arte, Met6afísica e Mitologia”.

  2. freaky said

    Ora, eo que entenderá, ou melhor, poderá explicar o Sr. Pacheco Pereira, o que entende por “decência mínima”? Parece-me a mim que não falamos a mesma língua!! Ou será o senhor um indecente autista?…

  3. nenuco said

    Amiga Freaky, com o teu mestrado londrino em Jornalismo Internacional, não me digas que não conheces a língua do senhor! Francamente!

  4. freaky said

    Não my darling, e o mestrado foi consigo à pala de muito “jobs for the boys”, ou o mesmo será dizer, o Aristides, pagou para eu trazer o canudo, no fundo eu desgracei-me lá para os lados de Camden Town, e ele com uns trocados subornou os súbditos de sua majestade, em libras e ouro, claro está, que eles com os euros, como bem sabes, não querem nada !!!!! Mas o senhor Pereira podia dar-nos a sua definição de “decência mínima”, gostaria de saber até vai o seu autismo, wouldn’t you too dear bold Nenuco?

  5. freaky said

    Onde se lê:

    consigo e bold

    Leia-se:
    conseguido e bald

  6. nenuco said

    Bold Nenuco concorda sempre com a sua editora preferida. Será que o Público tem mais decência mínima do que o DN? E será que a SIC tem mais decência mínima do que a TVI? Será a decência mínima um equivalente para avença máxima?

  7. freaky said

    Calma, grande chefe, calma. Vai lá tomar a dose… já voltaste? OK. Ora, pois que o dito senhor, o Pacheco que é Pereira, poderia estar a referir-se a um certo partido, que tu tão pouco estimas, e ele por tantas vezes tentou e gostaria, ainda hoje, de ser figura principal, haverá na laranja mecânica, alguma perspectiva de “decência mínima”? Talvez a reposta esteja no livro de Pedro Santana Lopes, outro grande nome da nossa política nacional, que viu os escaparates hoje e que promete, ou talvez venha a ter mesmo fim que a mais recente obra literária de Manuel Maria Carrilho, outra grande ilustre figura deste circo político.
    (Já agora , Nenus, aproveita e edita o meu comment, já sabes que eu e as vírgulas temos sérios problemas de “indecência máxima”)!

  8. nenuco said

    Pronto, já tomei. Então, estavas a falar do PSD. Isso não, sobre o política não falo.

  9. nenuco said

    Leia-se “política”, não “o política”

  10. freaky said

    Opá, então num falas sobre “o política” ;-(, Nenus, eu prometo que não incito o pessoal a votar, prometo, prometo! E prometo salvar este país da crise também, e prometo que o orçamento de estado não prejudicará, por exemplo, o ensino superior, nem a função pública, e muito menos o arquipélago da Madeira!!!

  11. freaky said

    Aliás, parafraseando o professor Carvalho Rodrigues: “desconheço” como é que aquele homem ainda se mantém no poder, aquele, o dito que desfila em cuecas no corso de carnaval da sua “pérola do atlântico”!!! Independência, para a Madeira, já!!! E para a margem sul também (Diaz, tás aí?)
    Desculpa Grande Chefe, prometo que não falarei mais de política… Já te disse que votei Cavaco?! humpf!

  12. nenuco said

    Pois fizeste muito bem. E se tivesses votado no Alegre ou no Soares, estava bem também. Sabes bem que, para mim, o único candidato sério, rigoroso e decente seria o Manuel João Vieira. Ou então o palhaço Batatinha…

  13. Palmeira said

    era mesmo necessário o “a única coisa que conseguem pôr de pé”?

  14. O Pacheco Pereira é um grouxo Frouxo panilas!

  15. O Pacheco é um Grouxo Frouxo Rabêta!

    Incha, Pacheco!

  16. Ops!
    We’ve got updating errors e tal!
    Nenuco: hoje nem tu me consegues ganhar!
    Divide os 8 mil caracteres por três e vais ver que ainda és capaz de dar alguma luta!

  17. nenuco said

    “O colocar em pé” é metafórico não sexual, aludindo apenas a uma espécie de abrupta elevação intelectual.

    Diaz me aguarda, que estou preparando um guião de 150 mil caracteres para desorganizar a secção “palmeiriana” Jornais Velhos.

  18. […] Duas das vossas últimas criações textuais [mais esta do que esta] conduziram-me finalmente à reversão da revolta que alimentei para com certas opiniões, relativas ao anonimato na blogosfera, de José Pacheco Pereira, Rita Ferro Rodrigues, Miguel Sousa Tavares, Tiago Torres da Silva, José Manuel Fernandes… e por aí fora. […]

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