Pacheco Pereira na Gaiola de Faraday –  NC

Quarta-feira, 15 Novembro 2006 (23:45)

“…a comunicação social escrita precisa de pretextos para violar as regras de que se gaba como sendo distintivas”

“(O mal) está na nossa incapacidade para ler e escrever blogues, como para ler e escrever jornais com uma decência mínima”

José Pacheco Pereira (www.abrupto.blogspot.com e Público de 9 de Novembro de 2006)

Afirmou há dias o Dr Pacheco Pereira, com abrupta (ou será abstrusa?) propriedade, que costuma ter dias muito nãos, dias assim-assim e às vezes dias sim na imprensa indígena. Umas linhas e uns posts abaixo, com a mesma abrupta acutilância, discorria sobre o rigor, ou a falta dele, dos blogues e da comunicação social cá do burgo. Pois eu disse logo de mim para mim que ele não podia falar com maior conhecimento de causa. Em matéria de falta de rigor, o Dr Pacheco Pereira ganha com distinção à cabalística Esther Mucznik, ao profético César das Neves e ao fantasista Bernardino Soares. Com a diferença de que as opiniões destes não fazem mossa nem provocam efeitos colaterais visíveis – para amargo de boca da pobre Esther. Ao contrário, ao Dr Pacheco Pereira basta respirar para a massa crítica do país fazer a vénia devida e respeitar com sentido de lei os seus regurgitados sofismáticos.

Lembro-me que aqui há meia dúzia de anitos o venerável e venerando Dr Pacheco Pereira esqueceu-se do rigor na gaveta e cometeu a proeza de encher abruptamente uma página de jornal do Diário de Notícias com “especulações, ignorância, erros, presunção, boatos e insinuações”- coisas sinistras como quando se abrem folhas de revistas e de jornais ao acaso -, que causaram “mortes” e “feridos” graves numa equipa de investigadores da Universidade do Minho, que contava com a aprovação do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Foi o meu dia muito não nos jornais portugueses. Desconhecia há data, e ainda hoje, que os pareceres oficiosos do Dr Pacheco Pereira se sobrepunham à autoridade e aos conhecimentos científicos dos reitores nacionais. O que é certo é que assim que o cronista desatou a zurzir nos investigadores a mesma comunidade académica que tinha legitimado a pesquisa tremeu como varas verdes e o projecto de investigação quase sucumbiu no rescaldo da “rigorosa” argumentação do Dr Pacheco Pereira. Quase não, pois daí a poucos anos o Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais acabaria mesmo por fechar as portas. A razão? Bom, desconhece-se se o artigo do DN terá pesado mais do que a avaliação dos reitores que presidem às Bolsas da Fundação Bial. Mas não deixa de ser bizarro que um artigo de opinião de um leigo na matéria tenha merecido consideração suficiente ao ponto de fazer soçobrar um júri constituído por cientistas de insuspeita credibilidade. Seria o mesmo que termos o Engº Sousa Veloso, no saudoso TV Rural, a pronunciar-se sobre geometria fractal ou a simetria das supercordas.

Então e o que afirmava em bom e escrupuloso rigor o Dr Pacheco Pereira? Parece que a descoberta da roda, segundo o acolhimento entusiástico da sempre bem informada opinião pública, provincianamente embevecida com os milhares de volumes da biblioteca de Alexandria do talentoso opinion-maker – ai ele é tão inteligente! e tem tantos livros! e com aquela pêra solene vê-se mesmo que é um homem culto! Só que, em rigor, limitava-se a pedir a fogueira para os “charlatães” que andavam à “caça de fantasmas e fluidos ectoplásmicos” nas casas assombradas das nossas avós. É que os livros que o Dr Pacheco Pereira andou a ler sobre o assunto – também gosto muito da Biblioteca Nacional, mas a colecção de Lauro Trevisan está longe de ser uma referência na área dos estudos da mente – ainda deveriam ser do tempo da nossas bisavós e das famosas Sociedades Psíquicas de Londres e Nova Iorque, onde físicos e ocultistas travavam razões à mesma mesa (antes de universidades a sério como Harvard, Princeton, Amesterdão e Edimburgo se dedicarem a tão “exótico” tema). Vai daí e com o mesmo rigor dos jornalistas e blogers que tão elegantemente deprecia, o Dr Pacheco Pereira que se deverá ter esquecido de ler os pouco abruptos posts das Actas dos Simpósios da Fundação Bial, não se apercebeu de que o Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais tinha como único objectivo fazer um levantamento sociológico das crenças dos portugueses no “paranormal”. Tal como ele por certo anuiria, caso tivesse preparado o assunto com o rigor que gosta de exigir a terceiros, os cientistas que “queimou em acto de fé público” queriam apenas desmistificar atitudes irracionais e crendices populares profundamente enraizadas na população portuguesa.

Claro que o grosso dos seus leitores e até os habituais críticos aplaudiram de pé – talvez o palavreado fácil seja a única coisa que conseguem pôr em pé – o Dr José TORQUEMADA Pacheco Pereira. Possivelmente, nas bibliotecas que estão habituados a frequentar escasseia a literatura científica séria e rigorosa. Estivessem eles, e o Dr Pacheco Pereira, preocupados com o rigor das suas providenciais leituras, poderiam ter verificado que no século XXI os cientistas das áreas de fronteira já não caçam fantasmas nem sondam casas assombradas à procura de filamentos de ectoplasma. Geradores de números aleatórios, Paradigma Ganzfeld, Medição neurofisiológica de indivíduos em Estados Alterados de Consciência e Gaiolas de Faraday são “novidades” que o prestigiado intelectual parece desconhecer. Gostava, por isso, de propor à comunidade científica, obviamente com a aprovação do Conselho dos Reitores das Universidades Portuguesas, que se envie o Dr Pacheco Pereira para uma Gaiola de Faraday de modo a que ele comprove in loco as metodologias que lhe parecem ser tão estranhas. E, para que a pesquisa possua um protocolo rigoroso, deverá ficar estipulado que ele só terá ordem de soltura da Gaiola quando forem encontradas armas de destruição em massa no Iraque. Assim, a experiência terá o mesmo rigor e coerência a que o Dr Pacheco Pereira está habituado.

Parafreaseando o que o Dr Pacheco Pereira escreveu a propósito dos blogues, direi que tratar os artigos de opinião como um quiosque de jornais indeferenciado é deitar fora o menino com a água do banho. Por isso, em breve irei falar dos 10 por cento, número optimista, eu sei, dos artigos de opinião que vale a pena ler nos jornais portugueses.

À falta de cronistas com a decência mínima, deixo-vos com a decência máxima do Professor Carvalho Rodrigues:

“Os investigadores destes fenómenos extraordinários não têm que se sentir envergonhados por não terem a ‘chave’, porque em muitas áreas científicas e em situações humanas também se desconhece a forma como acontecem as coisas”

ASSINADO: NUNO COSTA

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5 Respostas to “Pacheco Pereira na Gaiola de Faraday –  NC”

  1. Toni Rebel said

    Nenucão,

    Tenho umas fotos bem fixes.
    Se precisares…

    ;)

  2. Ângela said

    “Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais”? Estranho nome, se apenas queria fazer “um levantamento sociológico das crenças dos portugueses no ‘paranormal'” e “desmistificar atitudes irracionais e crendices populares profundamente enraizadas na população portuguesa”.

    Mas, se calhar, não era apenas isso. É muito sintomática a sua lista que começa com “geradores de números aleatórios” e termina com “gaiolas de Faraday” – a caução da matemática e da física – para no meio incluir “novidades” da parapsicologia.

    Mas para que precisam de dinheiro do estado português se podem ter mais? Vide http://www.randi.org/research/index.html

  3. nenuco said

    Cara amiga Ângela,

    Agradeço a sua inteligente, porém pouco fundamentada, apreciação. E passo a explicar as razões:

    1. “Observatório Nacional de Fenómenos Paranormais” é, de facto, um nome estranho. Tão estranho como os que se seguem:

    Princeton Engineering Anomalies Research – http://www.princeton.edu/~pear

    University of California, Davis, Department of Statistics

    Division of Personality Studies, University of Virginia – http://hsc.virginia.edu/personality-studies/

    Southern Illinois University School of Medicine, Department of Psychiatry

    Saybrook Institute and Graduate School

    Lab Parapsychology at Harvard

    Cambridge University: Mind-Matter Unification Project -http://www.tcm.phy.cam.ac.uk/~bdj10C

    Goldsmiths College: Anomalistic Psychology Research Unit, University of London http://www.gold.ac.uk/apru/

    Hertfordshire University: Perrott-Warrick Research Unit -http://phoenix.herts.ac.uk/pwru/hmpage.html

    Edinburgh University: Koestler Parapsychology Unit- http://moebius.psy.ed.ac.uk/

    Bio-Emission Laboratory, National Institute of Radiological Sciences – http://wwwsoc.nii.ac.jp/islis/en/islis.htm

    Amsterdam and Utrecht Universities -http://www.psy.uva.nl/anomal/

    Göteborg University – http://www.psy.gu.se/

    Institut fur Grenzgebiete der Psychologie (IGPP) – http://www.igpp.de/

    Austrian Society for Parapsychology and Border Areas of Science – http://parapsychologie.ac.at

    New England University, Dept of Psychology -http://www.une.edu.au/
    (Confesso que chegado aqui fui tomado de algum cansaço, tal a extensão da lista de nomes “estranhos”)

    São tudo universidades “estranhas”, como estranho o facto da Sony japonesa, do Rockfeller Institute e da CIA, no projecto Stargate, e da URSS, através do Laboratóra de Cibernética Biológica, terem financiado projectos de investigação parapsicológica. Não gosta do nome? Nem eu. Mas os fenómenos não se compadecem com a nossa dificuldade de encontrar nomenclaturas apropriadas.

    2. Sim, os geradores de números aleatórios e as gaiolas de Faraday são instrumentos emprestados por outras áreas. Sim, a Física e a Matemática são necessárias. E ainda bem, pois não vejo outra forma de estudar estas coisas. Tal como o físico tem de recorrer à matemática, o químico à física, o biólogo à química e à física, o médico a todas elas. Chama-se a isso interdisciplinaridade. E sem ela não existe ciência.

    3. “Era apenas isso”, sim, “crendices populares. Sabe porquê? Porque os investigadores daquela unidade representam uma escola e um modelo de estudo cépticos. Acreditam que os os “acertos” estatísticos dos fenómenos psi se devem apenas a desvios estocásticos. Ou seja, outra forma de lhe chamar acaso.

    4. Mas digo-lhe mais: eu, que não sou nem crente nem céptico, ficava contente se eles estudassem mais qualquer “coisa”. Porque para mim não existem fenómenos indignos de ciência. Por mais bizarros ou “estranhos” que pareçam. Caso contrário, deixávamos de estudar a singularidade que antecedeu o Big-Bang, a harmonia das supercordas ou até a própria existência do Universo (não conhecço nada de mais “estranho” do que o Universo existir).

    5. Obrigado por ter citado o James Randi. É justamente para isso que serve a ciência: pesquisar, avaliar, desmistificar e contrapor. Agora, imagine que os investigadores de escolas diferentes do Randi recebiam os mesmos milhões de dólares. Talvez, a “luta” fosse menos desigual. Ou sera que defende pura e simplesmente que não deve haver pesquisa nestas áreas?

    6. Para terminar, deixo-a com o comentário do conhecido especialista e céptico Ray Himan aos 24 anos de pesquisa Psi do American Institute for Research e da CIA: “O efeito de tamanho relatado nas experiências era muito grande e consistente para ser desprezado como sendo um resultado acidental”

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