Conto de Natal

Quarta-feira, 22 Novembro 2006 (11:27)

Todo o santo dia Jorge detinha-se na montra diáfana da sua loja preferida. Pousava a mochila e os manuais que lhe auguravam uma escoliose precoce. Seguia-se um cigarro e o Ipod para lá dos limites do suportável. Qualquer coisa entre os Korn e os Marilyn Manson, que os decibéis existem para calar o silêncio da alma. Por fim, repousava os olhos na primeira prenda de Natal que iria ser realmente sua. Dele e apenas dele. Este ano tinha decidido oferecer-se um presente – com notas tão boas e sem faltas injustificadas, bem merecia uma recompensa. Algo de que gostasse realmente. Nada daqueles pijamas, camisolas, cahecóis e gorros de lã grossa com que a família declarava o seu amor incondicional.
Repetiu o ritual matematicamente até à véspera da Consoada. Penou durante um mês, fez uns biscates e poupou na mesada. Afinal, há sacrifícios que valem a pena. Os pais estranharam a princípio a férrea disciplina, mas acabaram por convencer-se de que o filho tinha, finalmente, entrado na linha. Com notas destas, tinha-se-lhe metido algum juízo na cabeça. Devia ser da nova namorada.
Chegou o dia mais aguardado. Um nervoso miudinho enrugava-lhe a testa adolescente e salientava o acne, esse cancro juvenil sem cura nem medicina à vista. Mas Jorge estava feito um homem. Depois de tanto trabalho, com mealheiro próprio e sem calotes, dava provas de autonomia e independência.
– Quanto é?
– São 250 euros.
– Aqui está.
– Sabes como é que funciona?
– Claro. Acha que eu sou algum miúdo?
– Claro que não. Diverte-te.
Guardou o embrulho na mochila com devoção religiosa. Sentia-se o ser humano mais feliz do Mundo e decidiu partilhar o júbilo que lhe transbordava no coração. Antes de se encontrar com a namorada, no parque municipal, ainda ajudou uma jovem mãe, ou talvez mãe jovem, com o seu carrinho de bebé, a descer a escadaria do shopping.
– Olhe que está frio. É melhor tapá-lo.
– Ai, muito obrigado. És muito simpático.
– Obrigado. Feliz Natal.
– Feliz Natal para ti também.

Pais, tios, primos, irmãos, sobrinhos. A mesa farta irá daí a nada a ser tomada de assalto como uma companhia cercada num teatro de guerra. Alinham-se estratégias para chegar ao arroz-doce mais distante. Escondem-se as filhoz debaixo das pilhas de guardanapos. Debulha-se a dose à velocidade da luz não vá o vizinho do lado ser mais ágil com os nervos da boca. São muitos os comensais, e ainda mais as iguarias, mas ninguém quer ficar a perder. Excepto Jorge, que não repete o bacalhau e deixa a meio a fatia de bolo-rei. O primo interrompe-lhe a refeição. E, o que é mil vezes pior, desalinha-lhe a lógica dos pensamentos.
– Então, os teus pais sempre te vão dar a Playstation Z?
– Não sei…
– Isso era mesmo fixe. Tenho ali o Total Combat 4 e podíamos jogar quando eles forem todos para a Missa do Galo.
– Iá, desse ver mesmo fixe – retorquiu com enfado e sem nesga de convicção.
Jorge não presta atenção. Só lhe interessa o presente escondido na gaveta das boxers. Olha para o relógio e conta penosamente todos os segundos.

Faltam dois minutos para a meia-noite. Finalmente, o pai, figura tutelar da família, anuncia solenemente a troca de presentes. Jorge pede servilmente autorização para ir ao quarto buscar uma prenda. São desembrulhadas piadas de caserna, episódios caricatos e memórias festivas com cada um dos pacotes. Risos, trocadilhos e chalaças de barriga cheia. Jorge entra no quarto e abre a gaveta
– Então, Jorge, nunca mais vens? – grita o pai da sala enquanto enche o copo.
– Vou já, é só um bocadinho.
Bang-Bang.
Um som estridente interrompe abruptamente a folia na sala de jantar. Lucinha, a irmã mais nova de Jorge, que tinha ido à casa de banho, entra no quarto e encontra um bilhete a vagar numa poça de sangue. “Feliz Natal”.

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18 Respostas to “Conto de Natal”

  1. Toni Rebel said

    Não é Total Combat, é Mortal Combat, certo?? (ou houve aqui algum cuidado com com as marcas?? playstation Z??? Estás com medo de algum processo por parte da SONY???)))

    Isto é um conto de Natal do Michael Moore?

    Gostei do BANG BANG, lembrou-me umas pastilhas tipo SuperGorila de laranja ácida que comprava em Espanha.

    ;P

  2. Espalha Brasas said

    Por que é que as pessoas escolhem sempre o Natal para se suicidarem ou matarem alguém?

  3. Bambi said

    Espalha, tratar-se-á de um suicídio exibicionista?

  4. Espalha Brasas said

    Mas para quê estragar o Natal aos outros? Já viste, depois ninguém come o perú e o bacalhau e a lampreia e o tronco e os sonhos. Tudo pró lixo!

  5. O que diria a Évora, se analizasse este conto pela psicologia que nela há, semanalmente?

  6. Palmeira said

    Diria, talvez, tratar-se de uma «ficção autobyographica reminiscendo a adolescência de nosso jovem escriptor assim expurgada publicamente»…

  7. Espalha Brasas said

    O tronco de natal, um bolo em forma de tronco coberto de chocolate. Alguns são tão bem feitinhos que até têm umas coisas verdes a imitar as folhinhas.

  8. […] A notícia vinha hoje no Público mas a “coisa” já existe há algum tempo. E tem vindo a ser acrescida de novas publicações. Segue-se uma pequena selecção [top thirteen pessoal] de entre os artigos científicos que por lá se podem encontrar, alguns dos quais nos fornecem valiosos instrumentos para análise do «Conto de Natal» do Nenuco: […]

  9. Toni Rebel said

    MOMENTO MALUCOS DO RISO
    >>>>>
    >>>>> Razão para viver!
    >>>>>
    >>>>>Um sujeito foi demitido, perdeu a esposa e o carro e amigos, e por
    >>>>>isso, resolveu suicidar-se.
    >>>>>Estava prestes a lançar-se da ponte, quando um mendigo pergunta:
    >>>>> – O senhor vai-se matar?
    >>>>> – Vou. E nem tente impedir-me.
    >>>>> – Não. Mas já que o senhor se vai matar, não se importaria em me
    >>>>>dar as suas roupas, pois não?
    >>>>>O sujeito concordou e despiu-se por completo.
    >>>>>O mendigo olhando para o corpo nu do sujeito, pergunta:
    >>>>> – Olhe, o senhor tem um traseiro muito gostoso. Já que se vai
    >>>>>matar e ninguém vai saber, deixa-mo comer?
    >>>>>Sem mais nada a perder, o sujeito concorda e deu a “bunda pro mendigo”.
    >>>>>Depois do acto consumado, diz para o mendigo:
    >>>>>- Agora devolve-me as minhas roupas!
    >>>>>- Mas o senhor não se vai matar?
    >>>>>- Mudei de ideia… Descobri uma razão para viver!
    >>>>>
    >>>>>Nunca perca a esperança, o seu dia pode ser hoje!!!

  10. No meio de tanta dizcuzão de óbvio intereze público, uma pequena nota zurge, no final (aqui, portanto), para análize de atentos vindoIros:

    Porque ezcreveu El Mariachi analisasse com Z?

  11. Merda… correu mal a cena acima. Eu e o html (assim como palavras com Z). Era para ter feito o link para http://www.letratura.blogspot.com no “Este Palhaço”. Mil perdões! Para a próxima faço um copy paste de anedotas que me mandem por mail em português do Brasil. Sempre tem mais piada!

  12. Toni Rebel said

    Mariachi…

    Copy paste…?

    Achas? Fui eu que inventei…
    ;)

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