o poema do marketing (do tamanho de um supermercado)

Sexta-feira, 24 Novembro 2006 (12:03)

[autor? o nosso médico retalhado favorito]

radion

MARKETING 

Aqui     a meu lado     o bom cidadão
escolheu Sagres
que é tudo     tudo cerveja
a pausa que refresca
a longa pausa de um longo cigarro King Size.
                                    atenção ao marketing.
Eu não gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para não contrariar os fabricantes de cerveja.
                                    atenção ao marketing.
ninguém contraria os fabricantes da Opel e da Super Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suíça
nem o homem da capa negra que virou costas ao Palmolive.
Está tudo perfeito e deito-me no conforto de um Lusospuma
a ver as procissões a passar     mesmo sem anjos     mesmo sem anjos
que são agora selvagens e voam numa Harley.
Deito-me e obedeço aos fabricantes do Clarim
que é uma alta onda ou uma onda alta
sem esquecer as fitas do John Wayne e a chama viva do Butagás
e se calhar sentir fome terei toda a frescura serrana
numa fatia de pão.
                                    atenção ao marketing.
Vitonizo-me     desodorizo-me     atravesso as ruas nas passagens de peões
louvo quem me dizem para louvar e desconfio dos negros americanos
e dos blousons noirs     que não usam Lux
e não compram um frigorífico a prestações
e com o meu escudo invisível
protejo-me dos vírus subversivos
sou um bom cidadão     sou um bom cidadão
obedeço ao marketing     à General Motors e ao Pentágono.
Dantes     tinha problemas     era o odor corporal
e eu não o sabia     até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete das estrelas
e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia
e o talco Cadum     que ama demoradamente roucamente tepidamente
os corpos que merecem ser amados…
Obedeço ao marketing     não contrario.
Ninguém contraria os fabricantes das ideias e os fabricantes do Fula
que é o da cor do sol
ninguém pisa os riscos brancos do tráfego
nem chama os bombeiros sem concorrer ao sorteio
concorro     concorro     e vejo nos sinaleiros o pai natal vestido de Scotchgard
ninguém sai do emprego antes de assinar o ponto a horas fixas
e gastar o dinheiro da semana sábado à tarde
no Dardo     que é tudo a prestações e é mesmo em frente da Música no Coração.
Fazendo Portugal mais alegre com o folclore da TV e a tinta Robbialac
não contrario     obedeço     obedeço     e meto os meninos na cama
quando me dizem vamos dormir.
                                    atenção ao marketing.
Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário     que é detergente
e eu uso-as e sou um cidadão perfeito
e até já consigo adormecer com hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeinado
e no Verão visto calções de banho de fibras sintéticas
para me banhar na Torralta
cidadão perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre Solaire.
Também vou arear as caçarolas e os nervos e os miolos
com um pó azul de que não me lembra o nome
não me lembra mas a culpa já não é minha
porque na mesma noite
massajado com Aqua Velva
fiz a barba com Gillette e Schick e Nacet
e fui não sei aonde com a mesma lâmina
e oito dias depois (eu era actor ou toureiro?)
a lâmina ainda me escanhoou mais uma barba
antes de eu descer no aeroporto
onde me esperava um agente de marketing.
Os produtores viram-se à descida do avião
primeiro julgaram que era o filho da Sophia Loren
ou o Onassis   mas era eu
e gostaram da minha barba bem feita.
(Da barba bem feita
ou do casaco Dralon que não se amarrotara
durante a viagem da Polinésia para Lisboa?)
Confesso que já não me lembra     mas a culpa não é minha
pois na mesma noite
fui o homem de não sei quê que marca o rumo
por vestir regras ou camisas ou calças que não se enrugam
e fartei-me de assistir a discursos e a inaugurações
e fartei-me de comer chocolates Regina e pescada congelada
e de lavar a roupa com Ajax e com o Rino
e de me banhar com Omo ou seja uma onda de brancura
e fiz-me mecânico de automóveis
só para que o cavaleiro da armadura branca
me tocasse com a sua lança mágica
e me pusesse branco branco branco
três vezes branco como as páginas do Reader’s
de cérebro irrepreensivelmente lexivizado
pelos locutores da televisão     pela oratória dos políticos
e passado a ferro com um ferro eléctrico automático
que talvez fosse — ou não? — uma enceradora Philips.
Tudo coisas admiráveis e desesperadamente necessárias
que eu devo ao marketing
e me são cozinhadas num abrir e fechar de olhos
nas panelas de pressão
de todo o bom cidadão.
E no intervalo bebi café puro     o do gostinho especial
Sical Sical que é um luxo verdadeiro
por pouco dinheiro.
Vitonizado     esterilizado     comprando e concorrendo
esqueci-me de amar     do amor     das árvores e do rio
esqueci-me de mim     tão entretido estava a admirar a Lisnave
esqueci-me do rio e dos barcos
e da saudade de pedra do Fernando Pessoa
e esqueci-me de sonhar que era marinheiro.
Concorra     concorra     foi por isso que não reparei
que uma rapariga cortou as veias
talvez fosse com uma Diplomatic
que tem o fio e o silvo de uma espada a degolar avestruzes.
No programa só havia bombeiros
nem uma rapariga a cortar as veias (não não era a Caprília)
nem o rio nem o amor nem a raiva da Venezuela.
Se mágoa sentia era a de ter esquecido
dar murros no espião da Missão Impossível
                                        (atenção ao marketing)
e já não saí de casa para ver o rio
só pelo gosto de me aquecer com uma Ignis.
E na mesma noite     noite boa     noite branca
fumei Estoril     Valetes     Kayakes e bebi Compal
depois da Salus e da Schweppes
fumei quilómetros e quilómetros de prazer
quilómetros e mais quilómetros — há um Ford no meu futuro —
mais facturas mais fomes mais prazer
e agora já não sei qual dos cigarros com filtro
me soube melhor.
Foram todos     foram todos de certeza
pois se me dizem que preciso do Omo
do Ajax     do Estoril     do Dralon
do esquentador e das alcatifas sem nódoas
não me preocupo     não te preocupes
o Meraklon não preocupa ninguém
mando para o diabo o amor e o rio e a rapariga que cortou as veias
não me preocupo     não me preocupo
digo pois pois ao Jota Pimenta e ao Escort
e hei-de virar-me do avesso para os possuir.
Os corpos que merecem ser amados merecem o talco Cadum.
Numa onda de brancura obedeço ao marketing. Sou um bom cidadão.
E na mesma noite
vi umas bombas que caíam muito ao longe
numa lonjura mais longe que a Lua
onde as pessoas podiam estar quietas a fumas Marialvas
e a lavarem-se com Rino     que lava lava lava
lava três vezes mais     lava ou mata que se farta
e me ajuda a ser bom cidadão.
                                        atenção ao marketing.
Vi uns homens a inaugurarem estátuas
e vi fardas e paradas e conferências
e crianças a sorrir
para os homens sorridentes que inaguravam estátuas
e vi homens que falavam e pensavam por mim
a escolherem por mim o bom e o mau
de modo a que eu não possa ser tentado
a confundir o mau com o bom ou vice-versa ou vice-versa.
Deitado no conforto de um Lusospuma
vi os porcalhões dos hippies nas ruas de Estocolmo
bem longe     nas ruas de Estocolmo
mesmo a pedirem uns safanões
dos homens que acariciam crianças
e têm todas as verdades na mão
só para que eu seja um bom cidadão.
É isto: marco o rumo. As minhas cuecas marcam o rumo.
Preciso e gosto de uma data de coisas
e só agora o sei.
Menos da Sagres. Mas acabarei por gostar.
Ninguém contraria o marketing por muito tempo.
Ninguém contraria os fabricantes de bem fazer
o bom cidadão.
                                        E tudo graças ao marketing.

 ————————————-

[Fernando Namora, pois então]

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Uma resposta to “o poema do marketing (do tamanho de um supermercado)”

  1. Toni Rebel said

    Sim somos escravos do Marketing e o Marketing não é nada sem pessoas!

    ;)

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