Conto de Natal II

Domingo, 26 Novembro 2006 (14:31)

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze. Doze vezes dobram os sinos em vénia secular a anunciar o nascimento do Menino. Elas, de véu e rosário as mais velhas, decote e telemóvel as mais novas, esgotam num ápice a lotação da igreja para saudar o Menino. Eles, de boina e bagaceira os mais velhos, de gel e “Mine” os mais novos, esgotam num ápice o stock de bebidas da aldeia para saudar o São Gregório. Elas bradam a Glória nas Alturas e desfiam as más contas da vida em rosários carcomidos. Eles bradam as Glórias do Benfica e desfiam as más contas da Liga em cérebros carcomidos. Elas vêem em Sebastião, o pároco, o Salvador na Terra feito Cristo o redentor. Eles vêem em Miccoli, o rato, o Salvador na Terra feito Eusébio o matador. Católicas apostólicas e pouco romanas elas. Pagãos pouco apostólicos eles. A mesma fé. Deuses diferentes.

Elas beberam o sangue de Cristo e o corpo do Senhor será o único que vão tomar nos braços nessa noite. Eles cospem sangue do fígado e limpam a boca com um lenço velho antes de tomarem nos braços uma puta ainda mais velha. Elas lavam os pratos e esfregam as mãos nos restos deles. Eles cospem no prato delas e esfregam as mãos nos restos de uma puta barata. Elas caem no sono cansadas e sonham com o corpo de Cristo consubstanciado em Sebastião, o pároco. Eles caem de bêbados e sonham com um corpo de mulher consubstanciado em Elvira, a puta.

Elas dormem. Eles ressonam. Sebastião não prega olho. Fazer de mensageiro do Pai e do Filho desgasta-lhe o corpo. E o Espírito. Precisa de recobrar forças e bem merece uma recompensa terrena depois de fazer de cicerone do Reino dos Céus. Assim lhe ensinaram no Seminário. Que os santos precisam de dois dedos de pecados por uma mão cheia de virtudes. É assim o equilíbrio natural. E a vontade de Deus. Pega no telefone e marca encontro no cruzamento do costume. A esta hora não passa ninguém e a barba postiça evita sobressaltos de última hora.

Marco sai à sorrelfa dos labirínticos caminhos do Seminário. Não gosta das camaratas, não sabe soletrar Teologia e é homem pouco dado aos recônditos da fé. Mas sempre é melhor do que a ordenha e os calos nas mãos de uma vida de sol a sol. Hoje, o Menino Jesus pôs-lhe no sapatinho um presente inesperado. Como não é um dia como os outros vai aumentar o cachet. E o paneleiro do Sebastião que se aguente. Se não quiser, ele que vá aos putos da Misericórdia, cheios de sida e sífilis, que vai logo ter com os anjinhos enquanto o diabo esfrega um olho.

– Olá, Marco. Ainda bem que vieste.
– Calma, Sr Prior, que ainda não me vim.
– Detesto esse teu humor de rufia. Parece que não aprendes nada no Seminário.
Sebastião desaperta a braguilha ao jovem seminarista. Por instantes, esquece as saloias da aldeia e as suas libidinosas confissões imbecis, “ai senhor prior que fiz amor com o Jacinto da mercearia” ou “ai que esta noite sonhei que o senhor prior me tocava”. Marco pensa em Kátia, a nova miúda da pastelaria da Dona Maria. Não é particularmente bonita, mas o peito robusto e o rabo espetado valem bem o dinheiro que irá gastar no cinema. Marco vêm-se na cara de Kátia, consubstanciada no rosto efeminado de Sebastião, o pároco.
– Vai, Sr Prior, hoje o confessionário é mais caro que é o dia do Senhor. Passe pr’a cá 30 biscas.
– Ensandeceste, pobre Marco? Levas os 20 euros do costume e nem mais um avo.
– Dê mas é cá o guito antes que a gente se chateie.
Sebastião vira costas, atira sobranceiramente os 20 euros para o chão e dirige-se para o seu Pólo cinzento. A perplexidade de Marco não dura mais de três segundos. O tempo suficiente para o jovem seminarista arremessar a nuca de Sebastião contra o vidro do Pólo e completar o serviço com cinco pontapés certeiros no rosto do padre.

Quatro anos depois, o pároco continua imerso no seu sono comatoso. Pode ficar assim durante mais quatro. Ou pode despertar a qualquer momento. É o mistério da vida entre as paredes brancas de um quarto de hospital. Se visse as suas novas feições, Sebastião não iria querer acordar. Agora é Sebastião, o mártir, vítima da agressão bárbara de um incógnito malfeitor. Ou Sebastião, o monstro, no dizer das crianças que as mães arrastaram à força para verem o Sr Prior.

Marco saiu do Seminário, arranjou emprego e casou-se com Kátia, de quem tem um filho de dois anos. Este Natal vai ser pai de mais um menino. E vai comemorar à volta da fogueira, com os amigos da aldeia, enquanto a mulher faz contas à vida num rosário carcomido durante a Missa do Galo. Depois acaba a noite a esfregar-se nos restos de Elvira. Kátia regressa à cozinha para lavar os pratos e esfregar os restos do marido.

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2 Respostas to “Conto de Natal II”

  1. freaky said

    Costa tem Mail, vai ver é algo urgente. (desculpem o aluguer do espaço tipo: msn)

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