Conto de Natal IV – O gafanhoto

Domingo, 10 Dezembro 2006 (12:15)

Quatro jovens deslocados numa festa socialite abandonam a batida e dão a vez aos candidatos desesperados que pedincham uma abébia ao macaco-cinza que faz de porteiro. Está um frio de gelar os ossos ali à beira-rio e só um táxi nos pode resgatar daquele desfile de horrores. Um Mercedes creme veio descarregar mais um fardo de aspirantes a V-I-P’s, que irão tentar a sua sorte com a besta à entrada que sobrecarrega o seu QI com a difícil operação matemática de seleccionar os eleitos. Corremos afanosamanente para a liberdade de um táxi quentinho e sem beat de feira. Está livre. Estamos livres.
Agora, sim, os quatro jovens esclarecidos podem dar azo à sua superioridade intelectual, moral, estética e ética e debroar diálogos inteligentes e de cultura elevada.
– Foda-se, tá um grizo!
– Deve ser a noite mais fria do ano.
– Eu, por acaso, não tenho frio nenhum.
– Não tens frio?
Os indíces meteorológicos do meridiano ibérico e outros temas de dificuldade similar são discutidos com presença de espírito e senso crítico apurado. Das altas e baixas pressões passamos num piscar de olhos para os enigmas da biologia.
– Então e aquela vez em que encontrei um gafanhoto dentro da lata de ervilhas!
– O quê? Dentro de uma lata de ervilhas?
– Sim, estava por abrir.
A história prossegue com os pormenores e os intricados necessários a uma boa narrativa. Nisto, o taxista, que segurava os nervos faciais a custo, explode numa cascata de gargalhadas genuínas (deviam ser genuínas, pois o trajecto económico não lhe deveria dar sequer para o gasoil)
– Um gafanhoto? AHAHAHAH. Já estou a ver as perninhas! AHAHAHAH. Essa é mesmo boa. Um gafanhoto!
É um mistério saber como é que um gafanhoto vai parar a uma lata de conservas hermeticamente fechada. O facto inusitado desafia a racionalidade e a lógica mais empedernidas. O nosso amigo taxista compreendeu o dilema e reagiu como qualquer físico de vanguarda faria diante dos teoremas que tentam explicar como um electrão pode ser partícula e onda ao mesmo tempo. Com um bom e sonoro gargalhar. Ainda bem que trocámos a festa viperina por este concílio de sábios.

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10 Respostas to “Conto de Natal IV – O gafanhoto”

  1. Palmeira said

    Ouvi dizer que o taxista esteve à beira de se metamorfosear em gafanhoto!

  2. nenuco said

    Posso te garantir que esteve mesmo quase. Eu vi com os meus olhos.

  3. nenuco said

    Com legumes da horta do Toni não há cá diabetes!

  4. freaky said

    “jovens esclarecidos podem dar azo à sua superioridade intelectual, moral, estética e ética” HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

  5. nenuco said

    Da próxima vez vou mostrar a minha superioridade no Rio Shopping Seixal

  6. Bambi said

    ó nenuco, o gafanhoto não foi parar a uma caixa hermeticamente fechada. foi enlatado juntamente com as ervilhas. não sejas maluco! eu é que sei, porque o gafanhoto era meu!

  7. nenuco said

    Sorry. Mas acho que ganha mais ênfase “uma caixa hermeticamente fechada”. No entanto, obrigado na mesma.

  8. Bambi said

    pois, ganhava ainda mais ênfase se estivesse vivo…

  9. nenuco said

    Boa. Acho que vou acrescentar isso.

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