Carta a Gentil Martins

Quinta-feira, 11 Janeiro 2007 (16:16)

Antes de mais, quero agradecer-lhe a sua preocupação, caro Doutor. E contribuir para apaziguá-lo um pouco na sua cruzada em nome da Vida, que sei que o anda a desgastar um pouco, a dar-lhe assim que a volta ao estômago em convulsões nervosas e impacientes e o bispo que não lhe deve andar a dar a hóstia na boca à hora certo. Mas acho que no meio de tanto artigo de jornal, de tanta carta para revistas a queixar-se de ser incompreendido, de tanta sessão de maquilhagem para aparecer na televisão, de tanto jantar com a Isabel Neto e a Laurinda Alves para alinhar as tropas contra a trope de sem-vergonhas promíscuas que andam para aí a foder a torto e a direito, de tanta adolescente de doze anos a convencer que deve levar a gravidez até ao fim, deve andar assim a jeito que um bocadito distraído. É perfeitamente compreensível. É por isso que, para lhe tornar a vida mais fácil, que o doutor já tem certa idade e os AVC andam por aí, decidi aliviar-lhe o fardo e dizer-lhe que é escusada tanta preocupação comigo – em momento algum eu lhe entreguei a minha consciência para que possa arrogar-se o direito de saber o que é melhor para ela. Não tome como seu a propriedade alheia, que, além de ser má-educação, a isso chama-se roubo desde os tempos de Hamurabi. A época em que a Igreja Católica tinha direito inalienável sobre as pobres almas pecadoras chegou ao fim – não sei se as palavras Estado Laico fazem soar alguma campainha na sua cabeça – e o Céu e o Inferno são assuntos privados de cada um. Por isso, não se preocupe tanto com as opções da minha consciência. Bate um coração? Pois é, mas esse coraçãozinho bate dentro de uma barriga que não é sua e cada um faz o que quer com a sua barriga e com o que daí advém e depois lá lida, ou não, com as suas questões morais ou éticas. Uma coisa é certa: não lhe reconheço em momento algum o direito de decidir por mim. Quem disse que eu quero ir para o Reino dos Céus? Consegue lidar com o facto de nem todos seguirem a mesma cartilha – a sua? Num país já super-povoado por xenófobos, corruptos e reaccionários, a sua voz poderia ser maus útil noutras paragens… Sugiro-lhe que considere a hipótese de ir separar gémeas siamesas para a Irlanda. É só uma ideia, mas se o assusta a insularidade, a Polónia está mesmo a jeito…

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2 Respostas to “Carta a Gentil Martins”

  1. A. Cunha said

    Estado laico? E então a missinha da inefável DGCI, a dar graças pelo esfolamento da cambada que desconta à cabeça?
    Cpts.

  2. Estado laico ou lacaio…
    Explico: o monhé é o lacaio do banco que trabalha no Estado. O Estado, por sua vez, faz de nós lacaios, e o resultado de tudo isto é que o lacaio do banco que trabalha para o Estado ri-se à fartasana por saber que o Estado nos explora.

    Cumpts
    web

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