Um dia no Júlio de Matos

Segunda-feira, 22 Janeiro 2007 (20:44)

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A NEGAÇÃO
Fui ao Centro de Documentação da Direcção Geral de Instalações e Equipamentos Hospitalares, do Ministério da Saúde, consultar uma planta urbanística de um hospital de Carnaxide. Resposta (após vários telefonemas desesperados do segurança): Ai, aqui não há nada disso. Só se for no Júlio de Matos. No Júlio de Matos? Pergunto, algo atónito. Sim, é lá que se encontra o arquivo. E eu insisto, qual arquivo? O arquivo da Direcção Geral de Saúde. Está no Júlio de Matos.

O DIAGNÓSTICO
Ora aí está uma medida inteligente. Como ninguém sabia que destino dar ao arquivo vai de enfiar-lhe com a mesma terapêutica reservada aos humanos a quem ninguém também sabe o que fazer. Ainda não sei se ao arquivo lhe terá sido diagnosticado uma psicose de personalidade múltipla, esquizofrenia em último grau ou tão só a depressão da moda. Que isto das modas não é só coisa de humanos, está bem de ver.

O INTERNAMENTO
Chego ao Júlio de Matos e apetece-me perguntar em que ala se encontra o arquivo da Direcção Geral de Saúde. Resposta: Arquivo? Qual Arquivo? Ingénuo, tento explicar que na Direcção Geral de Saúde mandaram-me para aqui (agora, o segurança já não faz um ar surpreendido). Não estou a ver nenhum arquivo, aqui só o Infarmed e o Instituto do Coração. E foi aí que o meu coração parou por momentos. Então, o Infarmed também veio parar ao Júlio de Matos? E que tal mandar para cá a Polícia Judiciária, o Instituto Nacional de Estatísticas, o Banco de Portugal…Olhe – a voz e o cheiro a cascas de laranja nas mãos do segurança reanimam-me -, pergunte ali ao meu colega, que ele talvez saiba. E lá vou eu outra vez feito maluquinho.

A ADAPTAÇÃO
Boa tarde, pode-me dizer onde é que fica o arquivo da Direcção Geral de Saúde? Arquivo? Qual arquivo? Disseram-me que o arquivo da Direcção Geral de Saúde era aqui no Júlio de Matos…Há aqui um arquivo, mas é do hospital. Será que é a biblioteca o que você quer? Pois, deve ser. Então, tente no Pavilhão 34. Obrigado, já agora, pode-me dizer como é que se vai para lá? Ah, nunca veio cá? Silêncio. Não, não vim. Ah, então vai em frente, vira à esquerda, depois vira à direita, depois vai até ao fundo e bla, bla, bla.

A PARANÓIA
Escusado será dizer que me perdi a caminho do misterioso Pavilhão 34. Este Júlio de Matos parece uma casa assombrada. Não há viv’alma. Não, há ali uma alma ou outra, mas não parecem muito vivas. Sinto-me o Fox Mulder, mas sem a Dana Scully, à procura de um OVNI. Quem me dera, pois acho que é mais fácil encontrar OVNIS ( e sósias giras da Dana Scully). Subo e desço escadas, entro em edifícios desertos e encontro um ser humano finalmente. Desculpe, sabe onde fica o Pavilhão 34 (rendi-me à designação “paranormal”)? Um rosto feminino, entre os 20 e os 21 anos, lavado em lágrimas olha para mim como se eu fosse um ET. Avanço dois passos e compreendo as lágrimas, estou ao pé de qualquer coisa como o centro de tratamento de alcoolismo e outros ismos patológicos congéneres.

A FUGA
Mais uns quantos edifícios passados a pente fino e dou de caras com um logótipo vistoso (aqui qualquer coisa não tingida a branco, preto ou cinzento é vistosa). SUCH, Serviço de Utilização Comum dos Hospitais. Penso, olha deve ser isto, como ando à procura do arquivo comum dos hospitais portugueses, este SUCH é capaz de ter alguma coisa a ver. Subo uma rampa imprópria para cardíacos, mas boa para doentes mentais, e dirijo-me ao segurança. Boa tarde, é aqui o arquivo da Direcção Geral de Saúde? Não, isto é o SUCH (nunca cheguei a perceber o acento british se as siglas são nacionais!). Ah, pois claro, amigo, é que eu sou maluqinho e não sei o que é o SUCH. Você quer o Pavilhão 34? Sim, por favor, o Pavilhão 34 (se não disse “por favor”, pensei nisso). Isso é lá naquele edifício branco (eh pá, branco, jura?). Está a ver aquela porta para peões? Vai por ali, contorna o outro edifício e está logo lá. Logo, o caralho. No such thing, ó Rambo. Ao menos se me tivesses dado uma chave ou um maçarico para abrir a porta dos peões…Faço mais 150 metros e finalmente, divina glória, o Pavilhão 34. Fox Mulder, ganhaste o dia, penso. Sim, se o Pavilhão 34 estivesse aberto…Há mais uma rampa que dá acesso a um arbusto. E a única entrada é uma porta de armazém. Quer o arbusto quer o armazém estão fechados às sete chaves. Olho para este portento arquitectónico e penso que bem que devem estar os livros ali. Em camisas de forças. O melhor é eu pirar-me já daqui antes que fique por cá a fazer companhia ao arquivo da DGS. Ou ao Infarmed. Eu cá não me meto com gajos que tomam comprimidos.

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9 Respostas to “Um dia no Júlio de Matos”

  1. Freaky said

    “Feito maluquinho” Nããããããããã, olhe que não, Nenuco, olhe que Não! E atrevo-me a dizer que a senhora que chorava ali se encontrava incrédula e chorosa pela expectativa do resultado do referendo do próximo dia 11. Perante a tacanhez, com certeza, antecipou-se – antes a camisa de forças!!!! Pois claro!

  2. nenuco said

    Por acaso vi por lá uma ou dois teenagers que em vez de andarem na escola carregavam os putos ao colo. Essas não choravam. Mas também duvido que vivessem.

  3. Freaky said

    Pois… Viver vivem, mas vivem uma vida de merda, elas e os putos.
    Já agora, eu curto dar-me com gajos e gajas que tomam comprimidos, diz-me a experiência, que no meio desta espelunca que é este t4 mundial, que são os mais sãos ;-)

  4. Ando a tomar uns Ilvico Antigripal… Achas que desta forma já mereço um telefonemazito?

  5. Freaky said

    Umas palmaditas nesse rabo gordo, é o que tu mereces sogro. Experimenta o aerius, é melhor que o zyrtec!

  6. Freaky said

    Boa Nenuqinho logo pela manhã e tanta hiper actividade cerebral, acho que somos candidatos ao Nobel, ou será ao Pulitzer? Com uma grande sorte ainda nos calha o Oscar de melhor argumento original!!!!

  7. Freaky said

    Ah, e denoto aí um certo desejo paternal, huuuuuummmmmmm Five starssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss!!! Vai ser em terras deVera Cruz!

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