Voto, logo existo

Segunda-feira, 12 Fevereiro 2007 (19:53)

Há e tal se não votas não tens direito a protestar. Já repararam bem no abismal vácuo teórico da afirmação? Já alguém se deu ao trabalho de avaliar objectivamente a pretensa superioridade moral e o paternalismo de carteirinha dos cidadãos empenhados que arrotam semelhantes postas de pescada? Pois, eu cá, estou fartinho até à medula de ouvir dislates e sentenças que tais a juízes de comarca de café. De tal modo que até já tenho os nervos auditivos em franja com tanto disparate junto por parte de beatos e freirinhas que se julgam a combater numa cruzada democrática contra a iliteracia política.
Mas, afinal, com que raio de autoridade moral e ética é que alguns energúmenos desatam a apontar o dedo a outros seres humanos pelo facto de estes se recusarem a pactuar com um sistema viciado à enésima casa e que não apresenta qualquer caução de fiabilidade? Será que os virtuosos eleitores compulsivos, que tão afanosamente cumprem o seu dever cívico, já alguma vez se questionaram sobre a jactância moral com que acusam o vizinho do lado? Não estarão eles a querer impor um sistema de valores e uma moralidade própria a cidadãos que se regulam por outras bitolas? Por alguma fracção de segundo nas suas vidas perderam tempo a fazer contas e a fechar balanços de actividade sobre o comércio pornográfico e imoral de egos, ambições, interesses influências e lobbies que fecha a cadeado a democracia representativa num circuito-fechado? Será que em algum insight já lhes terá ocorrido que desempenham na perfeição o papel de títeres sem vontade própria destinados a representar de quatro em quatro anos o sofrível papel de cidadãos empenhados e pró-activos que ilusoriamente julgam ter uma vírgula que seja no livro da história só porque rasuram uma cruz numa rifa de feira? Se, como seres livres, cortamos relações com os nossos cônjuges, familiares, amigos e patrões, quando não nos sentimos dignificados na nossa individualidade, por que estulta e ignota razão custa assim tanto a compreender que alguém decida cortar relações com as instituições de poder? Será assim tão criticável e imoral um indivíduo que conscientemente se recuse a representar o papel de joguete num sistema aberrante e autofágico?
Na minha modesta opinião, a única coisa verdadeiramente criticável é não aceitar as expressões idiossincráticas do Outro, no seu pleno e salutar exercício de individualidade. Não votar, sendo um direito, ou seja, uma prerrogativa que compreende o uso da auto-consciência numa atitude reflexiva, nunca poderá ser um dever. Logo, cada vez que alguém se arma em Torquemada ressabiadinho a acender lesta e militantemente a fogueirinha para autos de fé cívicos, está a querer impor pela coacção e pelo exercício da força uma ordem moral. E isto só tem um nome: ditadura.

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21 Respostas to “Voto, logo existo”

  1. resume isso em cinco linhas hehehe

    é pá já foi!
    o caminho é para a frente

    (a verdade é que ainda não lemos)

    não, mentira, lemos o título
    vai ver a fanzine e passa lá na loja para comprares umas revistas underground dos anos 70
    e a história do glorioso em 143 fascículos (até ao Varzim 2006/2007) mas acho que só temos sete (o sétimo conta até ao campo antigo da luz-portas de benfica, ali junto ao cemitério).

    mas faltam umas páginas no quinto.
    por isso nem o Eusébio tens.

    já agora:

    – o Engenheiro-do-Não vai ser promulgado pelo Cavaco?
    – ou vão trocar o Rui Costa pelo Mendonça?
    – vão convidar o Marques Mendes para director desportivo?
    – o Mantorras votou sim?
    – e o Marco Ferreira, é um grande avançado?
    – o Beto votou?

  2. ozcz said

    Ok, não votes.

    O que é que vais fazer para mudar o sistema? Se apresentares uma boa proposta, voto em ti.

  3. nenuco said

    Meu caro,

    Quem disse que queria fazer alguma coisa? Não fazer pode ser bastante mais útil do que votar em alguém que nos apresente uma proposta de bandeja.

  4. O Porco-Nazi-Não-Votante-Anti-Semita-Mamalhudo said

    Venho por este meio expressar o meu desagrado quanto à inexistência de uma cópia deste texto nas redacções do DN, Correio da Manhã, 24Horas e Público (por ordem decrescente de relevância, já que desde hoje de manhã que o Público se confunde com o 24 Horas).
    Ou então, não faças nada.
    Mas este é dos poucos pontos onde, eventualmente, divergimos, meu caro. Não que esteja farto de ler a correspondência dos leitores acerca dos malvados buracos na calçada da Avenida de Roma ou dos outros que se queixam dos cagalhões da Rua Vera Lagoa.´Só acho que teria algum Frissom. E vamos lá a ver se publicavam.

  5. Freaky said

    NENUS, TU FOSTE VOTAR!!!????
    Ass.: La Freaky uma “cidadã empenhada que arrota semelhantes postas de pescada” ;-)

  6. nenuco said

    Minha amiga Mocas, há uma diferença clara entre um referendo e as eleições…Por isso, fui votar. Agora, o que não compreendo mesmo é a estranha necessidade dos votantes convictos tentarem envagelizar todos aqueles que decidem não votar em consciência…É o mesmo princípio dos católicos que tentam impor a sua vontade aos restantes cidadãos, no caso do aborto.

  7. Freaky said

    És capaz de ter razão amigo C., mas também há uma diferença clara entre os que votam por convicção – e somente isso – e os que seguem o rebanho. Quem não vota terá para todo o sempre o meu respeito, como bem sabes sempre respeitei as posições e as crenças dos outros, mas acima de tudo não imponho aos outros que se pautem pelas minhas crenças. O gozo de tudo isto reside nesse mesmo facto amigo ;-) (temos que ir almuuuuuçaar, para nos espancarmos ;-)

  8. nenuco said

    Ah, pensei que fazias voto de jejum.

  9. ozcz said

    Camarada eleitor,

    Vota se quiseres e se não quiseres, não votes. A mim tanto se me dá, como se me deu, embora a teoria do caos sugira que nada seria igual caso tivesses exercido esse teu direito (e há mesmo quem se atreva a dizer “dever”) em eleições passadas.

    Imagino que o facto de encarneirares com esse grande número de eleitores que se abstém regularmente por simplesmente se estar nas tintas e não por, como tu, ter algum tipo de convicção, te faça sentir ainda mais incompreendido e injustiçado, o que acaba por ser um bónus inesperado.

    Um abraço,
    X

  10. Toni Rebel said

    Atão Migo??

    Ditadura/censura é:
    Dizeres a alguém que disse a alguém,
    que por não ter votado perdeu o direito de falar…
    Ou fazemos todos o que queremos/acreditamos…ou ninguém faz nada…

    hein?

  11. ozcz said

    Qual censura?

    Acho que todos devem falar, e quanto mais falarem maior a probabilidade de dizerem alguma coisa de jeito. Além disso, concordo ou discordo com ideias e não com pessoas. Por exemplo, se o Manuel Monteiro alguma vez disser alguma coisa de jeito, poderei concordar.

  12. Toni Rebel said

    Não era para ti Migo,

    Era para o Migo Nenuco!

    :)

  13. ozcz said

    Ah bom!
    Já me estava a sentir injustiçado.

  14. Nenuco said

    Moral da história: de ditadores e eleitores todos temos um pouco, migos.

  15. AM said

    Sem discussão.
    Quem quer votar, vota, e quem não quer votar, não vota. Eu voto. Pode ser mau (e é ) e ter muitos defeitos (e têm), mas é ainda assim o melhor de todos os sistemas à excepção de todos os outros…
    Se for obrigado a votar, pisgo-me!

  16. Nenuco said

    Quanto à teoria do caos, é bom não esquecer o reverso da medalha: se toda gente falar aumentam as probabilidades de existirem Manuéis Monteiros a não dizerem nada de jeito (agora, antes que alguém se apresse a atribuir-me um futuro sentimento de injustiça, que fique claro que não estou com isto a defender a lei da rolha, mas apenas a lembrar a possibilidade de se recorrerem teorias científicas para defender qualquer tipo de argumento). Kurt Godel demonstrou que qualquer axioma pode ser usado em sentido inverso, logo, segundo a teoria do caos, se um número esmagador de pessoas tivesse engrossado a “carneirada” (a expressão não é minha) que não vota talvez nada tivesse “sido igual” (a expressão também não é minha).

  17. Nenuco said

    Caro AM,

    A minha reflexão não visa as pessoas que votam, mas apenas as pessoas que, por votarem, recorrem a argumentos do género “ah, se não votas, não tens uma palavra a dizer e tal”. E isto, quer se queira quer não, é juízo moral paternalista e arreigado numa pretensa superioridade moral.Além de ser uma visão rudimentar e monopolista do indivíduo em sociedade. Foi só isso.
    Ainda assim, apraz-me saber que se o obrigassem a votar, preferia pisgar-se, atitude que considero louvável e contrária à de muitos democratas, como o idolatradao Sá Carneiro, que quiseram impor o voto obrigatório.

  18. ozcz said

    É curioso que com essa do voto obrigatório (que felizmente não existe) acabei por compreender melhor o porquê da escolha de não votar. Basicamente somos livres de votar, mas obrigados a votar em quem vai a votos…

    Depois de ver essa luz, acabei de ver outra (terá sido da mousse de manga?). E se, em vez de votarmos em pessoas ou partidos, votássemos em ideias?

  19. nenuco said

    Tenho uma ideia: vamos todar votar na descida dos preços da mousse de manga…para que todos possam ver a luz.

  20. AM said

    Proponho o culto da mousse de manga, com altares e igrejas, e baptismos, sim baptismos (na mousse…) e tudo.
    Abaixo os facciosos divisionistas da Igreja das últimas colheradas na mousse de manga!
    A minha igreja (mousse) é melhor que a tua.

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