Pacheco Pereira no Gato Fedorento

Quinta-feira, 23 Agosto 2007 (15:47)

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Desde os idos do MRPP que Pacheco Pereira não se revelava tão afanosamente dedicado às questões da terra. Com uma militância de fazer inveja aos miúdos (a fazer fé nos três canais de televisão, parecia que os catraios tinham acabado de sair do infantário) que andavam à ceifa em Silves, Pacheco Pereira empertigou-se no alto do seu poleiro e saiu de cajado em riste a encabeçar um movimento de sensibilização popular que traz à memória os saudosos programas de educação agrária que correram o pais de lés a lés. Só que ao slogan de antanho, “a terra a quem a trabalha”, Pacheco Pereira prefere agora “a terra a quem a pode comprar”.

Dá menos trabalho este novo slogan. Pelo menos, para quem não tem de trabalhar, de facto, a terra. O Pacheco Pereira, o Estado e os proprietários da dita. E qual é a principal premissa deste novo programa agrário? Que ninguém, nem o Estado, nem o Pacheco Pereira nem o Avô Cantigas têm uma palavra a dizer sobre o que se passa na terra. Em caso de dúvidas, basta seguir a lógica do não meter a foice em seara alheia.

É o magno princípio da propriedade privada. Reduz-se a ciência agrária a um jargão módico e temos o equilíbrio necessário entre o homem e a Natureza. Nesta perspectiva, questões como a equidade na distribuição da terra, o aproveitamento racional dos recursos naturais, a não utilização de práticas que ameacem o equilíbrio biológico ou o cumprimento de normas que regulem a prática agrícola (como a alínea c) do artigo 27º do Decreto-Lei 72/2003 de 10 de Abril que prevê a divulgação ao público das localizações das culturas geneticamente modificadas) tornam-se irrelevantes. Logo, segundo Pacheco Pereira, o que interessa é que entrar em propriedade privada é ilegal. Mesmo que o próprio Estado tenha sido o primeiro autor de acto ilícito.

Ora, este tipo de argumento suscita um certo paralelismo com o célebre sketch de Marcelo Rebelo de Sousa pelo Ricardo Araújo Pereira. Seria mais ou menos assim:

Então, entrar em propriedade privada é crime? É. E não divulgar ao público a localização de uma cultura geneticamente modificada também é crime? Também. Então, nesse caso pode-se invadir propriedade privada? Não. Mas a não divulgação de um campo com milho transgénico não é crime? É. Mas pode-se fazer? Pode. Mas não é crime? É. Mas pode-se fazer? Pode.

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