A Ilusão de Dawkins

Quarta-feira, 2 Janeiro 2008 (11:57)

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Há livros bons, maus e assim-assim. Entendo por assim-assim aqueles que, apesar de virem disfarçados com meia dúzia de ideias interessantes – não necessariamente originais – , não ultrapassam o limiar da mediocridade. E o último destes que me chegou às mãos foi o imperdível best-seller A Ilusão de Deus.

E por que é, então, a Ilusão de Deus um belo exercício de ilusionismo científico? Porque Richard Dawkins é um brilhante biólogo evolucionista, mas um péssimo pensador científico e uma nulidade como filósofo das ciências. Dar-se ao trabalho de escrever umas centenas de páginas para dizer que o Deus-Pai-Todo Poderoso dos criacionistas evangélicos e dos fundamentalistas islâmicos é uma ilusão constitui uma “proeza tão assinalável” que até a minha sobrinha de 12 anos (aluna de um colégio da Opus Dei) já chegou a essa conclusão.

Ok, a minha sobrinha não nasceu nos States e talvez por isso, e apesar dos condicionalismos religiosos, ainda consiga chegar a semelhantes conclusões. Pronto, talvez o livro faça sentido no Minesota ou no Arkansas…

Mas o que pretende mesmo Dawkins com este tipo de lugares-comuns? Extrapolar a evolução darwinista para futuros modelos cosmológicos e da mecânica quântica do universo, com o intuito de apagar de vez “Deus” do jogo de dados de Einstein. E é aqui que Dawkins se revela um cientista-filósofo sofrível:

1. A evolução biológica, sendo uma evidência científica, não é nem pode ser um modelo acabado, pois também precisa de “evoluir” sob pena de não resolver algumas questões inacabadas:

1a) O Nobel François Jacob, por exemplo, diz-nos que a microbiologia ainda nada sabe sobre o modo como a forma morfológica particular de um órgão ou de um tecido e as suas propriedades fisiológicas evoluem a partir da unidimensionalidade dos genes.

1b) Como é que espécies ameaçadas por mudanças desfavoráveis no seu meio conseguem sobreviver? Que se saiba a evolução das penas não produz um réptil que possa voar! Não parece provável que cada inovação por si só ofereça vantagem evolutiva!

1c) O que tem Dawkins a acrescentar sobre os registos fosséis que demonstram que as espécies não evoluíram de forma continua e fragmentária? O que sucede quando um processo adaptativo é interrompido e tem lugar um novo processo de transformação?

Ou seja, o modelo evolucionista darwinista é bom, mas continua incompleto, e só em traços mesmo muito gerais é que este conceito de evolução pode ser transmigrado para a Cosmologia, a Astrofísica, a Física Quântica ou a Teoria das SuperCordas.

2. Sem dúvida que se aprofundarmos o conhecimento do Universo com novos modelos evolucionistas físicos, mas não biologistas, no campo das singularidades cósmicas, da física de altas temperaturas e da mecânica quântica estaremos mais próximos de compreender o funcionamento do Cosmos – mas não necessariamente a totatildade ontológica do mesmo. Mas isso é algo que, em breve, até a minha sobrinha, quando tiver 15 ou 16 anos, irá perceber facilmente. Mas o que isso tem a ver com existência de provas científicas contra a existência de Deus é que já me parece um exercício de ilusionismo de feira do Sr Dawkins.

Afinal de contas, o que é isso de “Deus”? Que eu saiba, não passa de uma palavra, de um conceito, de uma terminologia vaga e abstracta, imprecisa e não objectivável, que não traduz qualquer tipo de homogeneidade ontológica sólida e concreta sobre a qual se possam elencar argumentos baseados na medição e na reprodução de fenómenos que suportem quer a sua existência quer a sua inexistência. Para se afirmar que a ciência provou a inexistência de “algo” é preciso definir objectivamente de que trata a substância desse “algo”. E não me parece que esse “algo” tenha sido até à data alguma vez definido de forma operacional e objectivamnete sólida para se prestar a medições científicas.

3. Coisa bem diferente e sobre a qual Dawkins nada tem a dizer é o sentimento psicológico e o estado mental de unidade ou identificação unitiva com o Ser (do ponto de vista meramente ontológico da existência e sem qualquer conotação teísta) e o Cosmos – ou com diversas manifestações físicas daqueles – que certos indivíduos, por vezes, e de forma demasiado vaga, associam à palavra “Deus”. Estamos aqui a falar de sensações e percepções cognitivas que ocorrem em estados não ordinários de consciência – obtidos através do uso de LSD, meditação, transes xamânicos, hipnose clínica, etc – perfeitamente catalogados pela neurofisiologia. Mais uma vez, “Deus” – e nem sempre existe o recurso a este conceito nebuloso por parte dos sujeitos que percepcionam – aparece referenciado apenas de forma subjectiva e crepuscular. Nada haverá a dizer sobre o objecto “Deus”, pois trata-se apenas de um instrumento linguístico profundamente vago e inoperacional para ser considerado uma realidade ontológica que permita verificação laboratorial. Mas um estudo multidisciplinar – que envolva a Psicologia, a Neurofisiologia, a Linguística, a Antropologia, a Física e a Matemática – poderá dizer-nos algo sobre o homem face ao mistério da existência e do Universo. Nada nos dirá sobre a existência ou não dessa “coisa” que alguns apelidam “Deus, mas ficaremos mais próximos de compreender o que é o Real nas suas diferentas camadas de manifestação. E qual o lugar da consciência no processo cósmico. Mas sobre isto, mais uma vez, Dawkins nada tem a dizer.
Por isso, esperarei que a a minha sobrinha e a sua geração tenham mais para acrescentar ao debate do que o autor da Ilusão de Deus.

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13 Respostas to “A Ilusão de Dawkins”

  1. sofia gaivota said

    Muito Bom! Parece-me que já te tinha enviado isto: http://www.ted.com/talks/view/id/113
    De qq forma, os EUA são um universo à parte…. o que não desculpa o homem de todo , já que me parece que dá aulas em Oxford! :)
    Não li o livro mas pela conferencia na TED: pareceu-me um darwinismo reciclado que nos EUA corresponde a uma corrente qq … ou pelo menos é o suficiente para ser parecer audaz e exaltar alguns animos! Deveria ter o titulo: como apresentar uma conferencia sem te chateares muito, apenas o suficiente para levantar cabelo aos “red-necks” que andam pela net.
    :) Bom Ano!

  2. […] como: Darwinismo, Religare — Orlando @ 2:13 pm Tags: ateísmo, Dawkins, religião Este excelente artigo sobre Dawkins merece ser lido. No fundo – e resumindo – Deus é algo que convencionamos chamar de “Deus” […]

  3. bf said

    Com os argumentos daquele senhor agora tenho vergonha de dizer que sou ateu.

    É uma grande falta de inteligência dizer que os inteligentes são ateus.

  4. Caro Nenuco,
    Obrigado pelo seu texto no meu blog. Bastava linkar o texto. Não comento uma série de conhecimentos da biologia, porque não sou biólogo. Creio que Dawkins passou já o crivo da ciência para o considerar uma autoridade em algumas matérias da biologia. Com efeito comento uma frase sua:
    “Afinal de contas, o que é isso de “Deus”? Que eu saiba, não passa de uma palavra, de um conceito, de uma terminologia vaga e abstracta, imprecisa e não objectivável, que não traduz qualquer tipo de homogeneidade ontológica sólida e concreta sobre a qual se possam elencar argumentos baseados na medição e na reprodução de fenómenos que suportem quer a sua existência quer a sua inexistência. Para se afirmar que a ciência provou a inexistência de “algo” é preciso definir objectivamente de que trata a substância desse “algo”. E não me parece que esse “algo” tenha sido até à data alguma vez definido de forma operacional e objectivamnete sólida para se prestar a medições científicas.

    Então e o que dizer sobre qualquer problema cuja natureza não é a da verificação empírica? Para si não existe? Em relação à crença em deus remeto-o para a leitura do texto que está a encabeçar neste momento o meu blog.
    Obrigado e até breve
    Rolando Almeida

  5. nenuco said

    Obrigado pelo comentário, caro Rolando.

    Na minha opinião, as crenças, quaisquer que elas sejam, são matéria da psicologia, da sociologia, da filosofia e da antropologia e sobre isso Dawkins e a teoria da evolução pouco têm a dizer (quando muito pode teorizar, e apenas isso, sobre a evolução biológica do mecanismo da crença a partir do aparecimento do homo sapiens sapiens).

    Quanto a certos de estados de consciência, em que alguns indivíduos – referem sentimentos de unificação com o Cosmos ou a Realidade última (que alguns, mas só alguns, identificam como “Deus”, ver William Blake, Aldous Huxley, William James, Carl Jung, Albert Hoffman, Stanislav Grof, Brian Josephson, Thomas Merton, Buda, Ramakrishna, Sri Aurobindo, Platão, Plotino, etc), isso constitui, em primeiro lugar, matéria da Neurofisiologia, da Neuroteologia, da Psicologia da Consciência e da Psicologia Transpessoal.

    Em segundo lugar, o que a ciência pode fazer é verificar hipóteses de estudo e modelos de trabalho para averiguar qual a relação entre os estados não ordinários de consciência e as leis que regulam a matéria e a energia através da Física (campos electromagnéticos, mecânica quântica, atractores caóticos, holografia do cérebro, etc) e da Matemática (procurando estabelecer equações e postulados interpretativos).
    Finalmente, através de uma abordagem multidisciplinar que inclua, além das áreas referidas, a Cosmologia e a Astrofísica, um cientista poderá então ter qualquer coisa a dizer sobre a as fronteiras do Real e a relação deste com a consciência humana (e isto não tem nada a ver com crenças e só, em termos semânticos, alguma coisa a ver com “Deus”).

    Claro que qualquer indivíduo pode especular sobre o que quiser e nos termos que bem entender, mas, quando alguém como Dawkins se assume como biólogo e como evolucionista para refutar uma ideia não mensurárel no seu campo de estudo, vale tanto como um um arqueólogo a prenunciar-se sobre o buraco do ozono.

  6. Bicho do Ouvido said

    Obrigada à Sofia Gaivota pelo link da palestra do Dawkins. Muito interessante, por menos que se concorde com ele. Gostei especialmente da parte sobre o tabu que parece envolver a declaração de ateísmo – “agnóstico” soa muito mais politicamente correcto e menos definitivo.

  7. Straub said

    Se “Deus um Delírio” não é novidade para sua sobrinha de 12 anos, saiba que não se pode dizer o mesmo em relação a 90% da população do mundo.

    Dawkins não se propôs em momento algum em ser original e sim em fazer uma compilação de argumentos a respeito do ateísmo. E foi muito feliz nisso.
    Tão pouco se trata de um tratado de biologia. É um livro feito pra leigos. E principalmente pra aqueles que nunca tiveram o trabalho de analisar os dogmas religiosos em que foram criados. O que também engloba 90% da população.

    Quanto à definição de Deus, Dawkins passou um capitulo inteiro explicando de que Deus ele estava falando. Ao contrario do que você disse, o Deus das três maiores religiões do mundo é muito bem definido. E é desse Deus que o livro fala.

  8. nenuco said

    Caro Straub,

    Tenho algumas dúvidas quanto à exactidão dos tais 90 por cento…No entanto, a ser verdadeira tal cifra, duvido que Dawkins tivesse escrito o livro exclusivamente para esses 90 por cento, pois o grosso da população não tem por hábito ler e, na maior parte das vezes, nem sequer tem dinheiro para o fazer.

    Quanto à referida compilação de argumentos a respeito do ateísmo, volto a frisar que, ao fazê-lo enquanto cientista e biólogo, servindo-se de teses e hipóteses científicas, está a ser tendencioso e abusivo do uso da ciência, pois esta nada tem a dizer sobre a existência e a não existência de “Deus”. Ou seja, a constatação de leis naturais, como a evolução, ou postulados científicos, como a expansão do universo a partir de um Big Bang, nada nos dizem sobre a existência ou a não existência de “Deus”, pois facilmente podemos utilizar os mesmos argumentos tanto para subscrever uma posição ateísta como uma posição teísta. Por isso, volto a dizer que ser ateu, agnóstico ou crente, é uma questão de crença e não de ciência.

    Em relação à definição de “Deus”, não me parece que exista um conceito unívoco em torno das três religiões. No seio do judaísmo, o “Deus” dos cabalistas (descrito como Ayin, o Nada) é diferente do “Deus” dos fundamentalistas judeus que se consideram um povo eleito; no islamismo o “Deus” dos sufis (descrito como a Totalidade) é diferente do Deus dos bombistas suicidas; no cristianismo, o Deus dos místicos (como Meister Eckart que também equiparava “Deus” ao Nada) ou dos cristãos gnósticos é diferente do “Deus” das pessoas que fazem 300 km a pé até Fátima. Ou seja, também aqui Dawkins foi redutor na sua leitura do fenómeno da crença em “Deus”.

  9. Maicon said

    Olá Nenuco, parabéns pelo texto, apesar de não concordar inteiramnte com ele.

    Queria aproveitar para te convidar a participar do forum clubecetico.org, Lá inclusive, estava se dando uma discusão a cerca de dawkins e seus livros. Acho que poucos lá compartiham de suas idéias, pois em grande maioria, só li elogios. Se você gosta de conversar sobre esse e outros assuntos, e descutir seus pontos de vista. Entra lá.

    Abraço

  10. Sidney Reis said

    Concordo plenamente que há bons e maus livros, o “assim-assim” pra mim não está bem definido mas levando em consideração que “deus um delírio” não têm apenas “meia dúzia de idéias interessantes” e o que é interessante para um não necessariamente é para o outro. Em consonância com Straub (resposta n9) afirmo que Dawkins não se propôs a ser original, não que eu tenha percebido. Então diria que “deus um delírio” poderia ser um bom livro ou um mau livro, mas não me arriscaria pois sei que enquadra lo em qualquer uma das duas classificações seria no mínimo inútil levando em consideração a premissa acima (o que é bom pra você pode não ser bom para mim) além do juízo de valor que não sei se mesmo aqui seria cabível.
    Mas uma vez confesso que penso como Straub, a sobrinha de Nenuco pode até ter chegado a conclusão mas ma boa parcela da Humanidade não chegou a mesma e envergonhado confesso que aos 12 tinha plena convicção que se eu dormisse sem orar Deus ia me castigar, vou além, aos 20 anos ainda acreditava que se algo dava errado para mim era propósito do Supremo…
    Caro Nenuco, pesso que me perdoe se contesto algumas de tuas idéias (algumas eu admiro) e nem sei se posso, pois sou leigo, Não sou DR., nem Mestre, Especialista e nem Graduado. e assim como a grade parcela que vcs citam eu tbm não gostava de ler até que descobri que poderia ler o que gostasse e a partir deste momento a TV que me era companheira não passou mais de um belo enfeite no centro da sala. Entre uma renuncia e outra eu poupo o bastante para compra o que gosto de ler.
    Para concluir tão pensamento, (se é que posso) acredito que se não é um “pecado” não ajuda em nada afirmar que o “grosso da população não tem o habito de ler”. As pessoas que são alfabetizadas leem e o fazem com muita freqüência. A dona de casa lê a receita de bolo, o ‘modo de usar’ dos produtos de limpeza, O aposentado lê as placas de ônibus, o porteiro lê jornal, a minha avô lê a novena, os adolescentes, estes amam ler, observe-os se comportando diante do MSN ou do ORKUT… Acredito que Paulo Freire lhe perguntaria porque vc julga que o que vc lê para obter seu conhecimento é mais importante que o que o “povo lê para obter os seus…

    Nenuco, de todos seus argumentos o que mais gostei foi o numero 3 (talvez não argumente o resto porque não entendo nada de mecânica quantica, astrofísica e nem de cosmologia) .
    Bem iniciando minhas observações sobre tal argumento:
    1)Qual é sua definição p/ sentimento psicológico? seria o sentimento individual? algo intimo do ser? Pois se é esta a idéia o sentimento psicológico é observavel, pode ser descrito (por quem o sente) e porque não passível a predição?
    2)O “Estado mental de unidade ou identificação unitiva com o ser e o cosmo” , o que é isso? O estado mental seria um território da mente ou uma condição da mesma? Ou talvez de deus? Seja o que vc quer dizer com isso, é tão lógico utilizar deus para obter resultados científicos como contar com estados mentais explicar algum comportamento ou algo no âmbito da ciência. (Ironia, Será que sua sobrinha de 12 anos nunca lhe falou que a mente é = a deus?)
    3)Em consonância com Ronaldo Almeida (Resp 4) “deus” não passa de uma terminologia vaga impassível a medição, já sensações e percepções cognitivas são fenômenos +ou- iguais aos que descrevi acima (n1). e do mesmo jeito consciência enquanto lucidez ou acordado é tranqüilo.
    Acredito que podemos buscar compreender pq o ser humano se comporta de forma a inventar e acreditar em mitos estudando sua historia Filogenética, Ontogenética e cultural. E quando conseguirmos excluir todo o mito de nossa comunidade científica ai sim o mundo estará preparado para a era da Razão. (mas de ante mão parabéns a Dawkins pela “Cruzada Científica”)

  11. RAFAEL (PEIXE) said

    NAO DA PARA FALAR DE DEUS USANDO BASES CIENTIFICAS

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