Conversas com “deus”

Domingo, 27 Janeiro 2008 (21:58)

– Afinal, mas és ateu ou agnóstico?

– Nem uma coisa nem outra.

– Ah, então és crente!

– Também não!

– Tens de ser alguma coisa…Acreditas ou não acreditas em deus? 

– ‘deus’? Mas isso é o quê?

– Tás a brincar comigo? deus, pá… um ser eterno, uma entidade superior, o criador, um ente omnipotente, uma mente cósmica, sei lá…

– Isso é um bocado vago…nem sequer sei se os termos que usaste são compatíveis!

– Pá, chama-lhe o que tu quiseres…acreditas ou não?

– Mas queres que eu te diga se acredito numa coisa que não me sabes definir?

– Pá,  ninguém sabe definir… Para uns é uma coisa, para outros é outra, mas toda a gente tem uma opinião…

– Uma crença!

– Chama-lhe o que tu quiseres! Acreditas ou não?

– Acredito em quê?

  Foda-se! Em que há-de ser?

– Não sei, diz-me tu…

– Em deus, claro!

– Ah…E isso é o quê?

– Pá, tiraste o dia pr’a gozar comigo! Acreditas ou não?

– Não sei se estamos a falar da mesma coisa…

– Pá, é assim tão difícil responder! Ou acreditas ou não acreditas em deus…

– Huumm…E estás a falar do ser eterno, da entidade superior, do criador, do ente omnipotente ou da mente cósmica?

– Sei lá, meu…é indiferente…são só palavras…Acreditas ou não?

– É pá, ó Manel…

– Manel? Qual Manel? Tás-te a passar? Eu sou o Vítor, pá…

– Desculpa! Pensava que era indiferente!

– Mas estamos a falar de deus ou do meu nome?

– Então, mas não são só palavras?

– Esquece! Já vi que não dá pr’a falar contigo! Tchau!

– Tchau ou adeus? 

Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade Nem veio nem se foi: o Erro mudou. Temos agora uma outra Eternidade, E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra,Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.Um novo deus é só uma palavra.Não procures nem creias: tudo é oculto.                                  

Fernando Pessoa

Alguém me mata a merda do coraçãozinho?

Domingo, 11 Fevereiro 2007 (11:09)

Podia lá saber que a merda do preservativo tinha rompido. Noventa e nove por cento seguro, diziam os médicos. Pois, parece que o destino quis que eu me tornasse uma improbabilidade estatística. O anormal do Pedro também me podia ter avisado do desvio matemático em vez de se armar em poeta de alcofa a debitar lixo semântico. Ai, escrevi este no sábado, queres ouvir? Não!!! E o imbecil decide despejar aquela tralha na mesma, qualquer coisa como “musa da noite sem fim, que povoas os meus sonhos carmim”, ou seria “sonhos de marfim”? Whatever, o que um gajo faz para nos levar para a cama. Se soubessem como são ridículos na sua enervante boçalidade? E se eu soubesse que ele era desses, teria preferido ficar em casa a treinar para o Quem Quer Ser Milionário!
E, agora, o que é que eu faço? Vou-me pôr a reinar às mamãs com 16 anos? Estou um bocado velha para brincar às casinhas, mas continuo a ser demasiado nova para ir parar ao serviço de obstetrícia do Santa Maria. Eu não preciso de ser mãe. Neste momento precisava urgentemente de um colo materno que me reconfortasse deste estúpido infortúnio. Mas isso, claro, está for a de questão. A puta da velha é daquelas que vai cumprir promessas a Fátima de joelhos cada vez que eu me curo de uma crise asmática. Bem podias ter ido lá pedir para a tua filha não engravidar em vez de arrastares esse corpo obsoleto pelo betão do santuário enquanto os cabrões dos padres assistem de braços cruzados. Foda-se, com tantas religiões no Mundo, tinhas logo de escolher uma que diz que o seu profeta nasceu no útero de uma virgem. Não podias ser budista, hindú, bahal? Olha, até a cabala da Madonna era melhor, que pelo menos deve fazer bem à pele! Mas não, crescei e multiplicai-vos e caguem lá na sobrepopulação do planeta, que isso depois já não nos diz respeito. Olha, querida mummy, se hoje o sim não ganhar, podes ter a certeza que a tua filha vai matar, assassinar, esventrar, estropiar e tudo o mais a merda do coraçãozinho que é formoso e bonitinho que esses fanáticos idolatram febrilmente. E se não ganhar, olha, vou meter-me à estrada e acho que é desta que vou finalmente conhecer Barcelona. Acabo de vez com este estúpido arremedo de vida enquanto Deus esfrega um olho. E aproveito para ficar por lá. Longe de pecadilhos e preconceitos medievais. Depois, eu escrevo. E escusas de responder.