O prozac de Sócrates

Segunda-feira, 9 Junho 2008 (21:40)

Um puto de dez anos, de rojos pelo chão, arrasta-se sem uma perna a pedinchar umas moedas. A poucos metros, uma velha de pés para a cova aguarda pela próxima esmola. Talvez a última esmola. Para a multidão que passa em tropel, o puto e a velha são absolutamente invisíveis. Já estão fora de jogo. A multidão não. Acredita que está a jogar ao lado do Ronaldo e do Nani e acelera o passo para fintar o puto e a velha. E driblam e fintam como ninguém, deixando para trás o puto, a velha e todo e qualquer marginalizado que se lhes atravesse à frente. Os transeuntes correm como o Simão para chegar a horas ao ecrã gigante que a Câmara Municipal mandou instalar. A poucos metros da velha e do puto. Os olhos vibram, as gargantas esganiçam-se, há sorrisos e mãos na cabeça. Há transes colectivos a fazer lembrar as massas de Munique, ébrias pelas palavras inflamadas de Hitler. O Fuhrer tinha o dom da oratória. Sócrates tem Scolari. Nas democracias, a hipnose colectiva está obrigada a recorrer a técnicas mais refinadas. É preciso contratar técnicos de marketing para manter a hipnose colectiva. Scolari serviu que nem uma luva. Pelo menos, enquanto a selecção se mantiver em prova, o consumo de anti-depressivos deve baixar pela primeira vez nos últimos dez anos. O que já não é mau. A não ser para os farmacêuticos.    

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Sporting 0 Glasgow 2

Sexta-feira, 11 Abril 2008 (08:18)

1ª Parte

Biajy, ou como é que aquilo se chama, uma molhanga verde, em honra ao nosso Sporting que, afinal, nestes dias somos todos portugueses, uma saladinha de alface, cebola e tomate, tipicamente paquistanesa, obviamente!, e, por último, uma valente pratada de grão com especiarias e arroz basmati (acho que desta acertei no nome). Levo à boca a última garfada e digo de mim para mim: Diaz, esta vai ser a última banhada da minha vida! Nesse mesmo instante, o homem entra-me, afanoso, por ali a dentro. Justiça lhe seja feita: afinal, houvera um mal-entendido de SMS’s. Pronto, a culpa é dos telemóveis e não contem mais comigo para alimentar o mito.Último lance a assinalar na primeira parte: a menina que me vendeu a Bimby também foi ao jantar, o que,  por momentos, me deixou deveras preocupado: afinal, a porra da máquina de mil euros não é capaz de fazer os biajys e os basmatis que me apetecerem? Não, afinal, a jovem estava  ali pela mesma razão que eu: petiscar qualquer coisa num restaurante exótico (fiquei a saber que o dito até já saiu na Timeout) antes de seguirmos para a festa da FHM.

 

2ª Parte

Devo confessar que sou um privilegiado. Afinal, fui um dos restritos dez mil portugueses que tiveram acesso a um convite para a festa mais badalada da cidade. Quanto à festa, nem sei o que vos diga! Havia gajas boas? Havia! Boas mas mesmo boas? Não. Contam-se pelos dedos de uma mão as mulheres realmente dignas desse nome que os meus olhos puseram a vista em cima. Pode ser defeito ou feitio, mas aquelas melenas platinadas, aqueles micro saias de folhos e aquelas botas em bico não são bem o meu estilo. Quer dizer, a menos que às ditas micro saias viessem associadas uma Mónica Belucci ou uma Kate Moss, o que, estranhamente (tendo em conta o gabarito da dita revista), não foi o caso.Então, saí frustrado da festa? Nem por sombras. Pela primeira vez na minha vida, vi ao vivo e a cores um dos meus ídolos de adolescência. O inefável e inadjectivável (porém, adjectivante) Gabriel Alves, acompanhado por uma das tais platinadas de micro saia e bota de bico. O homem que há coisa de década e meia fez o relato do jogo mais memorável da história do futebol nacional: o igualmente inefável 6-3 no saudoso velhinho estádio de Alvalade. E lá pensei que não há mesmo coincidências! Afinal, o destino tinha guardado para o fim o melhor da festa. No dia em que o Sporting fazia história, tive o privilégio de me cruzar, eu e mais dez mil portugueses, com o mais carismático comentador desportivo de todos os tempos. Obrigado Gabriel! E obrigado Sporting. Que nisto de competições europeias, não me canso de repetir, somos todos portugueses. Por isso,  há que prestar a devida vénia aos clubes cá do burgo. Muitíssimo obrigado, Paulo Bento. E que contes muitos anos de vida ali pr’ os lados de Alvalade. 

 

Ziggy plays football

Terça-feira, 8 Abril 2008 (00:21)

Se eu fosse marciano e tivesse acabado de chegar à Terra, acharia estranho o facto de ser sempre a mesma equipa a ganhar o campeonato em Portugal. Bom, se eu fosse realmente marciano, iria olhar para leis que regem esse desporto magno, como um boi para um palácio – o que, desde logo, me faz pensar que o Bruno Paixão e o Olegário Benquerença podem ter origem extra-terrena. Mas, como, em consonância com o que consta no BI e com os testemunhos maternos, sou mesmo deste mundo, acho perfeitamente naturais e lógicos os consecutivos bis, tris e tetras do FCP. Tão naturais e lógicos como ter um primeiro-ministro que precisou de comprar os professores para obter uma licenciatura. Note-se que o problema – para um marciano, obviamente! – não é o facto de ele ter pago para ter um diploma, mas sim de necessitar de o fazer numa universidade privada – e, ainda assim, chegar a primeiro-ministro. Em boa verdade, tenho é pena de não ser marciano…Por que se o fosse, voltava já para lá e criava a minha própria equipa de futebol. E a primeira coisa que faria era levar o Bruno Paixão e o Olegário Benquerença. Depois, quando me reformasse da bola, inventava uma universidade qualquer onde pudesse arranjar uma licenciatura. E, por fim, chegaria a primeiro-ministro.