O prozac de Sócrates

Segunda-feira, 9 Junho 2008 (21:40)

Um puto de dez anos, de rojos pelo chão, arrasta-se sem uma perna a pedinchar umas moedas. A poucos metros, uma velha de pés para a cova aguarda pela próxima esmola. Talvez a última esmola. Para a multidão que passa em tropel, o puto e a velha são absolutamente invisíveis. Já estão fora de jogo. A multidão não. Acredita que está a jogar ao lado do Ronaldo e do Nani e acelera o passo para fintar o puto e a velha. E driblam e fintam como ninguém, deixando para trás o puto, a velha e todo e qualquer marginalizado que se lhes atravesse à frente. Os transeuntes correm como o Simão para chegar a horas ao ecrã gigante que a Câmara Municipal mandou instalar. A poucos metros da velha e do puto. Os olhos vibram, as gargantas esganiçam-se, há sorrisos e mãos na cabeça. Há transes colectivos a fazer lembrar as massas de Munique, ébrias pelas palavras inflamadas de Hitler. O Fuhrer tinha o dom da oratória. Sócrates tem Scolari. Nas democracias, a hipnose colectiva está obrigada a recorrer a técnicas mais refinadas. É preciso contratar técnicos de marketing para manter a hipnose colectiva. Scolari serviu que nem uma luva. Pelo menos, enquanto a selecção se mantiver em prova, o consumo de anti-depressivos deve baixar pela primeira vez nos últimos dez anos. O que já não é mau. A não ser para os farmacêuticos.    

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Contra-indicações

Quinta-feira, 8 Maio 2008 (21:21)

Hoje, acordei com uma sensação estranha. Apetece-me espalhar elogios e distribuir panegíricos. Hoje, apetece-me dizer bem do Sócrates. E do País. Do Sócrates. Elogiar o guarda-roupa do Berardo. E as habilidades do Pinto da Costa. O TGV e o novo aeroporto parecem-me obras magnas. Arquitectadas por magos telúricos. O Simplex, esse, parece-me simplesmente genial. E a ministra da educação? Sagaz, inteligente, perfeita, matematicamente coerente como se cada ideia sua brotasse de uma fonte eterna de sabedoria universal. Se hoje fosse dia de eleições até estava capaz de ir votar. E cumprir o meu dever de bom cidadão. Hoje, acordei com 38º graus de febre. Daqui a nada,  isto já passa. Acabei de tomar um Nimed e um Ben-U-ron.  Pelas minhas contas, devem estar quase a fazer efeito.

 

Em defesa da ministra

Quarta-feira, 5 Março 2008 (08:46)

Confesso que me causa certa espécie esta celeuma em torno da avaliação dos professores. Manifs, contra-manifs, conferências de imprensa, debates televisivos e até programas de entretenimento (sei que houve mais, mas assim de cabeça, lembro-me, por exemplo, do Prós e Contras)? E toda esta galinhagem só porque os pais podem mandar os profs para o subsídio de desemprego? Cá para mim, isto cheira-me mais a histeria periódica própria de uma corja apinhada de gajas e gays, ok, gajas!Por amor da santa ! Só quem não andou nas secundárias do Miratejo e do Laranjeiro é que acha que existe alguma novidade no diploma da ministra (para mim, a única novidade relevante consiste na diminuição do número de erros de português que o documenta apresenta, o que deve querer dizer que o ministério recorreu finalmente a revisores independentes e não à cambada de pré-reformados que fingem que trabalham ali no mono da Infante Santo).Isto já para não falar nos muitos, bons e pios colégios, plenos de isenção (fiscal, seguramente), onde, como é sabido, os profs só não vão para rua porque sabem manter-se fiéis a quem lhes mete a comida na mesa. Para mim, o problema é muito simples: manda quem pode e obedece quem deve. E, neste capítulo, a ministra limitou-se a dar o exemplo: os pais mandam e ela obedece.