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Entrevista com as Tayti para a revista Festa #48 [2000]

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TAYTI: “RENDE-TE A MIM!”

sixtay

Jovens, simpáticas, bonitas e talentosas! Conquistaram um lugar de destaque na música portuguesa e, apesar de se acharem nas nuvens, acreditam que o sonho está para durar.

Lançaram o single “Rende-te a mim”, extraído do seu último CD “Venham mais mil”, e querem que o público se continue a render por muitos e muitos anos. Não se preocupam com rótulos, pois sabem que o público é soberano nas escolhas que faz. Em palco demonstram o motivo do seu sucesso.

 

Festa: Como é que deram os primeiros passos no mundo da música?

Tânia: Nós começámos a solo e fizemos alguns trabalhos individuais. Eu comecei por cantar fado, depois passei pela música ligeira, mas foi uma experiência que não deu resultado. Eu e a Caty tivemos um percurso idêntico, só que ela, antes de fazer o primeiro trabalho discográfico, passou pelos ranchos folclóricos.

 

Festa: E como apareceram as Tayti?

Tânia: Fizemos um casting e fomos escolhidas entre 20 candidatas. E assim nasceu este duo, uma ideia de José Félix, o nosso produtor.

Caty: O nosso produtor escolheu-nos pelo contraste de vozes e por uma ser morena e a outra ruiva.

 

Festa: É comum pensar-se que esta profissão, além de não exigir grande esforço, ainda oferece um conjunto de regalias e de facilidades: dinheiro, estatuto, diversões, etc. Será que estes atractivos não terão pesado na vossa decisão de abraçar esta carreira?

Caty: Não, não. Foi um sonho de pequenas que se realizou. A Tânia em criança costumava cantar segurando numa colher de sopa. Em crianças temos determinados sonhos, umas pessoas desistem desses sonhos, outras não. Nunca me interessou ser vedeta. O que me motiva é o gosto de cantar, de estar em palco.

 

Festa: Antes de falarmos do vosso mais recente trabalho, eu queria discutir um pouco o vosso primeiro CD. Alguma imprensa, e eu pessoalmente até nem discordo, considerou que algumas letras do primeiro álbum são um pouco insinuosas, diria mesmo “picantes”…

Tânia: É assim: entre factos e artefactos, o tema do “Tutu”, que algumas pessoas consideraram provocante, dirigiu-se ao público mais pequeno, às crianças. Na verdade, achamos o tema inofensivo.

Caty: As crianças não têm maldade, os adultos sim. Conseguimos, de facto, chegar às crianças.

Tânia: A maldade está na cabeça das pessoas. Aliás, os grandes sucessos que agora passam nos EUA são temas que abordam o “Tutu”. Nós só não concordamos com preconceitos. Não pretendemos insinuar nada, apenas nos interessa cantar.

Caty: O “Bicho” do Iran Costa, também fala do “tutu” e foi um sucesso.

 

Festa: Eu também procuro não me deixar levar por preconceitos. Apesar de ter as minhas preferências musicais, concordo que a vossa música tem muitas semelhanças com trabalhos que se fazem no estrangeiro e que são um sucesso tremendo. E as pessoas nem se lembram de criticar esses grupos!

Caty: Em Portugal as pessoas ainda têm alguma falta de abertura.

 

Festa: Vamos agora debruçar-nos sobre o segundo álbum. Sendo um disco virado para os ritmos que marcaram as décadas de 40 e 50, depreendo que sentem um fascínio por essa época…

Tânia: Foi uma época com coisas boas. Deram-se grandes mudanças desde então. E assim achámos que seria bonito reviver esses tempos.

 

Festa: Que mensagem procuraram transmitir no dealbar do novo milénio?

Caty: Uma mensagem de paz e alegria. Como costuma dizer a Tânia: tristezas não pagam dívidas.

 

Festa: Do ponto de vista musical, que progressos notaram entre os dois CDs?

Caty: Achámos que este trabalho foi mais conseguido. As vozes estão mais entrosadas e o arranjo instrumental é melhor. E até foram utilizados mais instrumentos. Como se diz na gíria, o trabalho está mais limpo. Já conhecemos os tiques uma da outra.

 

Festa: É um trabalho mais sólido?

Caty: Exactamente.

 

Festa: Qual tem sido a aceitação do vosso trabalho?

Tânia: Temos bastantes espectáculos agendados. Graças a Deus as coisas estão a correr bem. Já o ano passado tivemos bastantes concertos e as pessoas, no final, chegavam mesmo a felicitar-nos. Nós gostamos muito de actuar ao vivo.

 

Festa: E é em palco que se sentem melhor?

Caty: São trabalhos diferentes. Em estúdio aprendemos bastante com as pessoas que nos orientam. No palco, tem especial importância a comunicação com as bailarinas e com o público.

 

Festa: O que é que distingue o vosso trabalho dos outros artistas que se situam na mesma linha?

Caty: O nosso duo é único. Temos uma forma diferente de comunicar com o público. E o nosso visual também é original. As nossas roupas são criativas.

 

Festa: Isso conduz-me a uma questão fundamental: não acham que essa importância excessiva do visual acaba por subvalorizar a vossa música? E se as pessoas as procurarem pelo aspecto e não tanto pela música que fazem?

Caty: Não, porque a música é uma coisa e o visual é outra.

 

Festa: Fazem essa separação?

Caty: Sim. Procuramos vestir-nos de acordo com os temas que cantamos; mas pode dar-se o caso de as pessoas não gostarem.

 

Festa: Digam-me agora quais as vossas referências musicais.

Caty: Nós gostamos de todos os géneros. Não somos esquisitas [risos]. A Tânia ouve os trabalhos mais recentes, eu prefiro as músicas mais antigas.

 

Festa: Mas têm por certo modelos que as influenciam.

Tânia: Quando comecei a cantar havia alguém que me influenciava: a Anabela. Ainda hoje a oiço, mas já não me influencia.

Caty: Eu gosto de vários cantores. Tenho uma grande admiração por uma voz: o Marco Paulo.

 

Festa: Bom, agora vou ser um bocadinho polémico. Se tivessem que classificar a vossa música, como a designariam? Enquadravam-na no género “Pimba”? Acham que isso existe de facto?

Tânia: Nós fazemos música latino-americana.

 

Festa: Mas eu insisto: não se revêem no fenómeno “Pimba”?

Tânia: Eu acho que isso não existe. Eu não aceito essa palavra. Mais uma vez, está tudo na mentalidade das pessoas. Fica mal às pessoas dizerem isso. Se as pessoas não tiverem maldade podem, de facto, divertir-se.

Caty: Música “Pimba” é o tema que o Emanuel compôs. Ele próprio diz isso. De resto, não conheço nenhuma música “Pimba”.

 

Festa: Não acham que possa existir alguma maldade por parte de alguns Órgãos da Comunicação Social?

Tânia: Não. Já nos fizeram perguntas semelhantes à sua mas nunca fomos atingidas por esse estereótipo. Dizemos sempre que fazemos música latina.

 

Festa: Quem são as pessoas que se dirigem aos vossos espectáculos?

Tânia: Pessoas dos 8 aos 80.

 

Festa: Mas isso é um cliché! Todos os artistas afirmam isso.

Caty: Temos de todas as idades nos nossos concertos: crianças que vão com os pais, senhoras com 70 anos, jovens, etc. Há bandas que têm como público maioritário raparigas e jovens. Mas no nosso espectáculo aparece de tudo.

 

Festa: Sentem-se bem perante qualquer público?

Caty: Sim. Não fazemos diferença.

Tânia: Sim. Graças a Deus. Até já actuámos na Semana Académica para os estudantes universitários e adorámos. Foi óptimo, rapazes, raparigas… estavam lá para se divertirem. Nesse tipo de espectáculos há sempre algum receio, pois os estudantes preferem música inglesa. Sabemos que alguns grupos sentem muitas dificuldades porque muitas vezes os estudantes ficam bêbados e começam a atirar garrafas para o palco. Mas ficámos surpreendidas, pois correu muito bem. As pessoas gostaram e até pediram mais!

Caty: Chegaram ao ponto de pedir autógrafos!

 

Festa: Posso afirmar que as Tayti são um projecto para durar?

Tânia: Claro. Foi por isso que o nosso produtor apostou
em nós. Nós sabemos o que custa chegar aqui. Estamos ainda um pouco nas nuvens mas esperamos que isto dure muitos anos.

Caty: As Tayti querem conquistar um lugar na música.

 

Festa: Parece-me que já conquistaram!

Caty: Sim. Agora manter é que é o mais complicado.

 

Festa: Bem, estamos a chegar à Páscoa e não podia deixar de vos pedir uma mensagem para os leitores da Festa.

Tânia: Façam muitos ovinhos bonitos. Comam-nos mas não se esqueçam de os fazer. As crianças nas escolas ainda fazem ovinhos e depois pintam-nos. A sério. Não percam a tradição, só assim é que sobrevivemos.

Caty: Em França, fazíamos uma pequena brincadeira: os pais escondiam os ovos dos filhos, no jardim ou no quintal (claro que só funciona numa vivenda) e, em seguida, as crianças iam à procura e, à medida que os iam encontrando, comiam-nos. Mas infelizmente o meu irmão tinha mais sorte e, então, comia mais. (Risos)

Caty e Tânia: Uma boa Páscoa para todos vós.

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Entrevista com Norbert Trenkle, autor do Manifesto Contra o Trabalho

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RAIVA CONTRA A MÁQUINA EM CRISE

 TRENKLEbyGARIDA

Temos que pensar numa economia, numa sociedade, em que qualquer tipo seja reformado à nascença. E saiba imediatamente, se puder entender, que quem não faz nada morre depressa. E que, portanto, procure naquilo que é, naquilo que sente do mundo, o que é que gostaria de fazer. As duas leis devem ser: “Não trabalhe nunca; por favor esteja sempre ocupado.”

Agostinho da Silva, O Elogio do Ócio 

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Naquela noite de meio de Maio de 2003, na Livraria Ler Devagar, onde o bom vinho acompanhou ideias revolucionárias, Luís Oliveira, editor da Antígona, apresentava o grupo Krisis como a mais importante consciência crítica social desde a Internacional Situacionista. Mais de 450 anos depois de La Boétie e 150 passados sobre o Manifesto Comunista de Marx e Engels, surge-nos, pela mão de Norbert Trenkle, esta polémica animadversão da sociedade actual, alienada em torno de uma abstracção despersonalizante denominada trabalho.
Alemão de Nuremberga com família em Lisboa, onde lhe foi criado o pai, Trenkle voltou à capital portuguesa para apresentar o seu mais recente livro, o
Manifesto Contra o Trabalho, na Livraria Ler Devagar, na Associação Abril em Maio e na Biblioteca dos Operários. O grupo Krisis, do qual faz parte, é um colectivo austro-alemão surgido em 1986 como reagente reflexivo à modernização desenfreada, sem preocupações humanas ou ecológicas, e contra a produção pela produção cujo aumento não gerou mais lazer e riqueza para todos mas cavou ainda mais fundo o fosso social vigente.
Neo-marxistas de formação, classificam as concepções capitalista e socialista de identificação com o trabalho como repressivas, desafiando pelo caminho conceitos burgueses que consideram ultrapassados como Direita e Esquerda, Política, Estado ou Democracia. Quando um Bill Clinton diz que «qualquer trabalho é melhor do que nenhum», é razão para ficarmos bastante preocupados. O futuro passa, primeiro que nada, pela tomada de consciência quanto à dissimulada esclavização levada a cabo pela actual sociedade «obcecada com o trabalho». Recomeçar a pensar e reorganizar novos movimentos sociais alternativos são as prioridades.

Qual a causa da crescente onda de desemprego, não só em Portugal, mas também em todo o mundo?

A causa fundamental é, obviamente, a crescente produtividade, originada pela terceira revolução industrial, a microeléctrica*. Esta veio possibilitar a produção de cada vez mais mercadorias com menos postos de trabalho. Ao contrário de permitir que todas as pessoas trabalhassem menos horas por dia, e pudessem desfrutar da riqueza produzida de modo satisfatório, isto possibilita que a exploração dos trabalhadores seja cada vez maior e proporcional à exclusão sofrida por quem está desempregado, ou seja, que já não é útil para a produção de mercadorias e subsequente valorização do capital.

[*NOTA: O grupo Krisis considera já termos atingido a terceira revolução industrial. A primeira foi, como se sabe, a revolução industrial inglesa do século XIX; a segunda corresponde ao que denominam de fordismo, que se aplica ao sistema de produção em série, e uma terceira, a micro-eléctrica, que veio dispensar muita mão de obra, a par com uma necessidade de produção desmedida.]

Porque denomina as medidas adoptadas para combater o desemprego uma «fuga para a frente»?

A fuga para a frente acompanhou toda a história da ditadura do trabalho. Sempre houve uma produtividade elevada mas, como se a mercadoria se produzisse com cada vez menos força de trabalho, e para impedir que isso acontecesse (o que destroçaria as bases do sistema), recorreu-se sempre à fuga para a frente, isto é, expansão e aumento da produção. Não é uma medida nova, apenas nunca se deixou de a levar a cabo. O problema existe quando o nível de produção já está tão alto, seja no ramo das comunicações móveis, software, ou automóvel, que essa medida deixa de ser solução.

Perante este cenário, que soluções aponta a Krisis?

Não há forma de responder concretamente a isso. A nossa posição prende-se com o facto de não haver, de uma forma inegável, solução política, pelo menos inserida no sistema capitalista. Não é possível aceitar as soluções propostas por este quando originam, precisamente, menos postos de trabalho e condições cada vez mais degradantes para quem os tem. Neste sentido, qualquer oposição ou protesto contra essas medidas é necessário mas, infelizmente, não basta! Há a necessidade imperiosa de que se vejam formados movimentos sociais que trespassem, periguem e contrariem a forma social imposta pelo capitalismo. Grosso modo, estes seriam a apropriação dos meios de produção e subsistência da ditadura do trabalho, como as fábricas, os terrenos, as casas, os meios de comunicação e culturais, e relançá-los de uma forma não mercantil, através de uma organização regida pela discussão e comunicação directa entre todos os que participam nessas mesmas corporações, a fim de decidir o que produzir, e como fazê-lo e distribuí-lo.

Nessa perspectiva o movimento okupa desempenha um papel importante?

Certamente que sim! A ocupação dos imóveis que alberguem a infra-estrutura do sistema vigente é uma fase importante do movimento social que se pretende. Cada ocupação é um grande passo. Barcelona e Madrid têm muitas ocupações, e no Brasil já são em número considerável.

E mantêm contactos com eles?

Não directamente. A maior parte dos que conhecemos devemo-lo ao nosso site, que também possibilita que mantenhamos muitos contactos com países onde nenhum livro nosso está publicado.

Referiu a inutilidade da política tal como se conhece hoje. Defende a sua cessação?

Sim. Deve acabar e está, efectivamente, a acabar. A política não tem capacidade de resolver os problemas que agitam esta sociedade. Vive-se hoje uma crise que reduz os fundamentos da sociedade a destroços. Numa sociedade fundada na valorização do capital, é necessário  que se criem cada vez mais postos de trabalho, mas essa é uma capacidade que já não existe. Dá-se então o derrube desta forma de sociedade e da política como forma de administração da mesma.Contudo, há que ter em conta que este fim da política não será uma libertação, apenas permite o surgimento de uma outra forma de organização social. Deverá existir um movimento social emancipatório a opôr-se, que não um partido político, um parlamento, ou qualquer estrutura de dominação hierárquica, mas sim de comunicação directa, de organização não-hierárquica em forma de concelhos, e de auto-determinação das pessoas que participam activamente na sociedade.

Identifica-se com alguma corrente política?

Não. Penso ter chegado a altura de criar uma nova corrente de crítica intelectual da sociedade vigente. Há, claro, certos movimentos sociais que têm um grande potencial emancipatório, tal como o movimento anti-globalização e todo o fundamento dos protestos surgidos, recentemente, na Argentina. Porém, sempre como movimentos sociais e não sob qualquer espécie de slogan com fundamento político.

Quais os filósofos com que se identifica?

Eu não lhes chamaria filósofos, talvez pensadores seja o termo mais correcto. Nesse sentido, uma certa parte da obra de Marx é importante na nossa linha ideológica, como a que faz referência à crítica do valor, à crítica da mercadoria, e à teoria da crise. Há depois todo um conjunto de críticos, seguidores do pensamento de Marx, como sendo Adorno, Lukács, Marcuse…

Consegue identificar, no tempo, a altura em que se deu o seu desencanto com o marxismo?

Usamos o termo “duplo-Marx”, precisamente, para demonstrar que identificamos duas tendências na obra deste. Uma, é o que chamamos a Teoria da Modernização, que ele representa através da afirmação da classe operária, onde o trabalho é apresentado como um elemento essencial do capitalismo. Ou seja, para a sobrevivência de ambos, o capital necessita do trabalho, e vice-versa. Neste sentido, pode-se falar, também e consequentemente, na luta de classes. A segunda tendência é a crítica da mercadoria como forma social básica do capitalismo. Marx fala aqui do fetichismo da mercadoria. A isto corresponde também a forma do trabalho, do valor e da representação destas formas que é, inegavelmente, o dinheiro.

A sua crítica do trabalho assemelha-se à crítica marxista do capital. Porque as vê como duas faces da mesma moeda?

Falamos do trabalho como uma forma social específica, sobre a qual se organizam as actividades económicas actuais. É a forma social correspondente à sociedade capitalista. Abstrai o homem como indivíduo, já que não interessa se ele produz pão, telemóveis, carros, ou armamento. O que é importante é produzir, produzir, produzir. Abstrai o indivíduo do seu contexto social natural. O objectivo a que se propõe o trabalho é destruir o âmbito psicológico de um indivíduo naturalmente social que deixa, pura e simplesmente, de o ser. O capital, por seu lado, também está assente na produção desmedida para que se possa valorizar. Serve, também ele, um fim abstracto, quantitativo e nunca qualitativo. São duas faces da mesma moeda! 

Como se posiciona, não só Norbert Trenkle, mas todo o grupo Krisis, perante a Organização Internacional do Trabalho?

Em princípio, todas as actividades ou decisões que têm origem aí, têm como objectivo instituir aquilo a que se pode chamar “sindicalismo universal”. É utópico! Isto não pode funcionar sem uma base social, como provaram os anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra, quando se tentou instituir esse conceito.

Mesmo depois da última Guerra do Golfo, e inversamente ao que costuma observar-se, o dólar continua com um valor mais baixo que o Euro. Será isto prova do iminente colapso dos mercados financeiros?

Pode muito bem ser. Não se pode evitar a queda dos mercados por via da guerra. É, realmente, uma medida usada desde a primeira guerra do Golfo, mas já não funciona. Isto porque o défice dos Estados Unidos é gigantesco. É o país mais endividado do mundo! Neste momento, já há uma fuga de capital tão grande que se faz notar na desvalorização do dólar em relação ao euro. Se isto continuar, pode significar a tal derrocada dos mercados financeiros, mas não a curto prazo.

Hoje em dia, o Estado está à mercê dos movimentos dos grandes grupos económicos. Será este o fim do Estado, tal como o entendemos desde Maquiavel?

É parte do fim do Estado. Foram poucos os países onde o Estado funcionou como uma instância organizadora da sociedade. Quanto mais se alastra a crise mundial, por um lado, e a globalização, por outro, torna-se cada vez maior a influência tanto de grupos económicos como dos grupos ligados ao crime organizado. Nessa medida, sim, é o fim do Estado, e os exemplos estão na Rússia e na Albânia, onde é o crime organizado que impera e dita as leis. Usam as estruturas estatais que ainda existem, embora sejam precárias, e levam a cabo uma organização que sirva os seus propósitos.

Será possível, então, viver sem o Estado?

Bem, se tomarmos o Estado como uma estrutura repressiva e destrutiva, que, infelizmente, hoje em dia o é, será possível viver sem ele. Viver sem o Estado tem de significar que se deu a superação do mesmo, no sentido de haver uma organização social por meio de comunicação directa. Dar-se-ia lugar a uma instância administrativa como uma extensão de todos os indivíduos.

Como consequência do sistema económico actual, com os ricos a ficarem mais ricos e os pobres mais pobres, prevê-se a extinção da classe média. Há alguma forma de contorná-la?

Inserido num contexto capitalista, é inevitável que aconteça. Contudo, há a esperança que não seja necessário que se chegue a esse limite para que possa haver uma reacção social. Normalmente, um movimento que se oponha a esta tendência pode e deve surgir a qualquer instante da crise, e de qualquer camada social. Não sou adepto de que seja necessário o aumento da miséria para que haja uma libertação social.

Conhece o nosso Almeida Garret?

Devo confessar que não.

Para além de um grande escritor de novelas, era detentor de uma fantástica clarividência em relação aos males sociais que, já naquela altura, se faziam sentir, como o demonstra a frase: “(…) e eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico”. Nota que já haja consciência disto ou é preciso sofrê-lo ainda mais na pele?

A miséria, por si só, não leva a nada. Antes pelo contrário, os pobres são, na maior parte das vezes, os mais conformados e, consequentemente, resignados. Se não houver uma outra força que possa servir de catalisador a uma verdadeira reforma, a pobreza é apenas uma das formas mas desumanizadoras do sistema. Sempre houve miseráveis mas, sem consciência crítica, não se vai a lado algum.

Mas as classes menos abastadas são, precisamente, as que menos contacto têm com os meios culturais de que fala, e que poderiam “educar” as gentes.

Sim, é um facto.

Por outro lado, a ditadura do trabalho chegou ao ponto de colocar no mesmo pedestal os executivos da Microsoft, Sony e Volkswagen, citando o exemplo que invoca no livro. Ganham ordenados altíssimos, mas sacrificam a vida pessoal por falta de tempo. Esta vida também não se coaduna com uma consciência crítica.

Estou completamente de acordo. Essa menção que fazemos no Manifesto Contra o Trabalho serve para demonstrarmos de que forma é que eles são, também, “moinho” do trabalho. Não se pode nunca dizer que estes terão uma consciência mais crítica que aqueles que estão na miséria. A ditadura do trabalho equiparou toda a gente em termos de graus de escravatura. Não se pode definir em que classe social se encontra mais ou menos consciência crítica, pois esta nasce com o sofrimento e a opressão, e isso sentem todas.

O Norbert é alemão, e terá consciência de que nós, os povos do sul, somos considerados naturalmente dolentes, não nos dedicando ao trabalho com tanta paixão e sentido de dever como um escandinavo ou um bávaro. Até que ponto, neste contexto, não será isso positivo?

Durante todos os anos em que “vocês” se preocuparam em contrariar essa opinião que os nórdicos, de facto, tinham acerca dos povos do sul, as coisas foram avançando a uma velocidade tal que, agora, quando realmente isso poderia ser uma qualidade e até uma arma, já não é assim. A ética do trabalho já está implantada no sul tão fortemente como no norte. Na última década, a identificação com o trabalho cresceu de tal modo na Itália, por exemplo, e em toda a América do Sul, que já estão a um nível equiparado. O mais importante, todavia é um desabrochar de uma consciência crítica quanto a esse modelo de organização social que é o trabalho.

Tem-se assistido ao florescer de algumas movimentações sociais, com maior incidência na América do Sul. O grupo Krisis tem muitos contactos nessa zona do globo?

Sim, temos muitos contactos com a América do Sul, nomeadamente na Argentina, Brasil, que são obtidos através da divulgação das nossas ideias. É uma forma de nos mantermos informados acerca do que se está a passar, económica e socialmente, nesses países.

O nosso apego sentimental ao Brasil obriga-nos a perguntar: o Brasil tem já um número considerável de indivíduos com vontade de mudar algo?

Há já uma consciência crítica e subsequente discussão bastante interessantes. Sobretudo nos grandes centros de descontentamento, como São Paulo, onde há na universidade um grande polo de indivíduos com bastantes ideias, no Rio de Janeiro e, principalmente, em Fortaleza e no Ceará, onde há um movimento social que ocupa casas, fábricas e terrenos, com quem temos um contacto muito assíduo. Há, também, uma razoável troca de ideias com algumas organizações que zelam pelos direitos das mulheres, no que respeita à violência doméstica.

Têm laços com o Movimento dos Sem-Terra (MST)?

Tem havido alguma troca de ideias desde 1992, altura em que foi editado, no Brasil, o Colapso da Modernização.

Pensa que a criatividade possa ser uma ferramenta de sobrevivência no actual mercado de trabalho?

Não vejo aí nenhuma potência crítica, pelo menos mais do que qualquer outra. A organização moderna do trabalho, que inclui a globalização e a informatização, ou seja, essa força de trabalho móvel, que não está fixa em nenhum ponto determinado, prova que a criatividade está instrumentalizada pelo capitalismo. A salvação não parte da criatividade.

Considera que a situação actual pode, a qualquer momento, colapsar?

A qualquer momento, não! Estamos num processo lento, de decadência do capitalismo, assim como se assistiu à sua ascensão. O auge já lá vai, e agora é a derrocada. Mas é um processo lento, que pode, porventura, ser acelerado por alguma vicissitude, como seja um colapso dos mercados financeiros, o que significaria um golpe muito forte. Mesmo assim, isto apenas corresponderia ao deterioramento do sistema até atingir um nível tão baixo que o aumento desmedido da pobreza seria uma certeza, incluindo nos países onde, por ora, as condições de vida ainda são aceitáveis.

[Norbert Trenkle foi entrevistado em Lisboa por Nuno Miguel Dias e João Palmeira, em Maio de 2003. Ilustração de Ana Margarida Carvalho.]

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